Comecei a trabalhar com mulheres em situação de vulnerabilidade quando eu ia para as praças, encontrava meninas que eram mães, mas que diziam que o sonho delas era que as filhas as chamassem de mães, porque as filhas estavam num abrigo e elas, por estar em situação de vulnerabilidade, por morar na rua, não podiam ser chamadas de mãe, não podiam ser mães. Então eu criei uma organização que trabalhava com essas mulheres, que acolhia essas mulheres e seus filhos e tentava resgatar os seus filhos nos abrigos para que elas pudessem ser mães, sentir a maternidade.
E fui trabalhando, fui fazendo, no começo tentando entender qual era a melhor metodologia, quais eram as melhores formas de poder fazer isso, mas fui acolhendo, trazendo as mães, aquelas crianças, filhos delas. Muitas vezes eu pensava no começo, nossa!, essa menina realmente não tem o comportamento de mãe, né? E o filho talvez sinta. Mas foi passando, fui continuando a fazer e um dia, no aniversário da filha da Paulete, a Paulete guardou dinheiro da sua produção de fuxico, e de um monte de outras coisas para poder comprar uma bicicleta. E quando teve esse aniversário, ela veio com a bicicleta, a criança olhou para ela, abraçou, abraçou e falou: “Obrigada mãe. E era exatamente essa menina, a Paulete, que tinha me instigado a fazer um trabalho para mães e filhos, olhar para essas mulheres que moravam na rua, mas que eram mães e que não podiam exercer a maternidade.
Quando essa criança falou obrigada mãe nesse aniversário, eu percebi que era isso que eu tinha que fazer, que essa era a transformação, que a transformação estava acontecendo e que realmente aproximar crianças das suas mães, que a maternidade era um princípio fundamental. Então foi ali que eu percebi que eu tinha começado a fazer a minha primeira transformação e a partir dali várias aconteceram.
Quando eu comecei a trabalhar com essas mulheres, mães, quando eu comecei a trabalhar com mulheres em extrema situação de vulnerabilidade, ainda existia esse olhar de que elas eram vulneráveis e que elas não tinham recurso, de que o próprio Estado é que tinha que promover o recurso para que elas sobrevivessem. Então, era um olhar muito de que o problema, como elas tinham um problema, elas não tinham solução, elas tinham que buscar depender do Estado, depender de outras pessoas para que elas pudessem sobreviver e muitas vezes abrir mão da maternidade. Então, era como se elas tivessem que seguir a vida delas naquela esquema de vulnerabilidade. Eu acho que a mudança sistêmica que eu pude promover foi apoiar ou fazer com que o olhar para elas fosse de recurso. Então, elas são mães, elas têm recurso. Onde há vulnerabilidade há recurso e a partir de um determinado momento, como existia a Lua Nova, como existia esse trabalho de olhar para essas mães, o próprio poder público, as próprias maternidades, quando nascia uma criança de uma mãe moradora de rua ou uma mãe usuária de droga, passaram a olhar para a possibilidade daquela mãe vivenciar a sua maternidade se ela tivesse um apoio para poder olhar para isso. Então, foi uma mudança de mentalidade. Olhar que era possível ser mãe, mesmo em situação de vulnerabilidade, porque talvez não tinha recursos econômicos, mas tinha um recurso de dentro. Tinha aquela vontade de ser mãe, aquela vontade de poder criar seu filho e isso era muito mágico, transformava. Então eu acho que essa mudança sistêmica que eu pude fazer, né? Transformar o olhar das pessoas para essas pessoas,
né? Para que elas pudessem olhar com olhar de recurso e não só com olhar de dó, de pena ou de raiva mesmo, né?
"A maior transformação não foi apenas reunir mães e filhos, mas mudar a forma como a sociedade enxerga mulheres em situação de vulnerabilidade: não como pessoas definidas por suas faltas, mas como pessoas que possuem recursos, potencial e o desejo legítimo de cuidar e construir vínculos com seus filhos."
a Ashoka foi a escola, né? Foi a inspiração. Acho que eu tinha dentro de mim algumas ideias, algumas formas de pensar, mas eu sempre olhava para os fellows, olhava para aquela rede, tentava entender o que era possível e o que não era. E, na verdade, na Ashoka, tudo era possível, porque era exatamente isso. Era esse olhar diferenciado, inovador, criativo que era valorizado. Então, senti força. Acho que a Ashoka, para mim, foi força, foi coragem para continuar fazendo, mesmo que tenha sido difícil enfrentar, enfrentar as políticas, enfrentar os juízes que condenavam esse tipo de maternidade. A Ashoka também foi uma escola de inovação. Na Ashoka, eu participei do concurso de planos de negócios para montar o Criando Arte, que era uma oficina de geração de renda para essa população. Foi com a Ashoka e com fellows da Ashoka também que eu aprendi a construção civil com solo cimento e pudemos fazer casas para essas mulheres que moravam na rua, elas mesmas fazendo suas casas. Então, tudo foi surgindo, né? Todo o olhar sistêmico, o tentar trazer essas mulheres para o protagonismo, para olhar para si mesmo, mas também para apoiar outras mulheres nas suas comunidades. Tudo isso foi aprendido com os fellows da Ashoka, integrado um grande quebra-cabeça que você tem uma base para transformar, mas você vai pegando aquelas ideias daqueles fellows e juntando essas ideias e ela vai virando uma ideia sua, inovadora, mas validada por esse grupo maravilhoso que é dos fellows da Ashoka.
Hoje, a estrutura de abrigo já não faz mais sentido, porque novas políticas públicas foram desenvolvidas, então, essa questão da maternidade para a população vulnerável, ela está sendo olhada, infelizmente, poderia estar sendo melhor olhada, mas o que a gente tem buscado é trabalhar dois âmbitos. Um é a economia do cuidado, as redes e relações entre essas mulheres nas comunidades onde elas já vivem. Então, essa acolhida na própria comunidade. Não mais trazer essas mulheres para serem acolhidas num abrigo, como era antes, mas buscar formas para que essas mulheres se acolham entre elas através de uma rede de apoio, uma rede de cuidado nas suas próprias comunidades, na própria rua ou no próprio ambiente onde elas vivem. E buscar alternativa para autonomia econômica. Então, a autonomia econômica e a rede de cuidado. A economia do cuidado e a economia da inclusão social, aquela que gera renda, são os nossos principais focos nesse momento, até porque para exercer a maternidade, para que se possa exercer autonomia ou cidadania, essas pessoas precisam ser economicamente ativas e precisam ter uma rede de apoio. Então, a gente tem focado nessa parte da atuação e temos trabalhado comunidades, hoje o nosso foco são as famílias, mães e filhos, solos, em comunidades vulneráveis.
Eu acredito que daqui a 10 anos seja importante pensar um pouco na questão da longevidade. A vulnerabilidade, ela é longeva, assim como as pessoas, então a gente tem que enfrentar um pouco essa questão da vulnerabilidade através de recursos. E eu acho que daqui a 10 anos vai ter que existir uma lógica de cuidado. Uma lógica de relações, vai ter que se valorizar muito a economia do cuidado, as relações não formais como proteção, assim como as políticas públicas. Então as relações não formais, as relações das pessoas, hoje elas funcionam como políticas públicas, elas acolhem, elas oferecem oportunidades, elas estão ali na escuta quando necessário. Então, priorizar a economia do cuidado como uma das economias que complementam as políticas públicas. Isso, com certeza, terá que ser o olhar do futuro.