Antes de conhecer a Ashoka, minha trajetória já estava profundamente ligada à organização popular e à luta pelo direito à moradia.
Minha atuação nos movimentos de moradia, especialmente junto às mulheres, foi construída a partir da experiência concreta nos territórios, compreendendo que o acesso à moradia digna representa também o acesso a outros direitos fundamentais. Foi nesse percurso que conhecer a Ashoka representou um novo momento da minha caminhada, potencializando um trabalho que já vinha sendo desenvolvido há muitos anos.
Acredito que minha primeira experiência transformadora foi ao conhecer a Ashoka. Fui apresentada pela diretora Jan Peterson, da Huairou Commission, na África, momento em que ela me disse que eu tinha a cara da Ashoka. Fui pesquisar na página e descobri exatamente o que era a Ashoka. Então, eu acredito que a minha primeira experiência transformadora foi exatamente quando eu conheci a Ashoka, sua história e trajetória. De lá para cá, eu venho me dedicando ao meu trabalho na Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste, na Secretaria de Mulheres e na União dos Movimentos de Moradia, através do próprio projeto que apresentei à Ashoka. Foi a esse projeto que decidi dedicar 90% dos meus esforços, focando na criação da Secretaria de Mulheres nos vários estados, mas principalmente no fortalecimento da Secretaria Nacional de Mulheres.
Ao longo desse trabalho, eu fui percebendo que fortalecer as mulheres através da formação e da conscientização também significava fortalecer a incidência nas políticas públicas. Cada vez mais essas mulheres passaram a ocupar espaços de
participação, contribuindo na elaboração de leis, programas e políticas públicas voltadas para garantir direitos e melhorar a vida das comunidades.
A segunda experiência transformadora foi manter o meu compromisso em atuar na defesa e incidência em políticas públicas, no combate à violência contra as mulheres e no fortalecimento — através de formação e conscientização — nos trabalhos dos territórios. Atuamos na base com as mulheres líderes para que cada vez mais se capacitem para incidir nas políticas públicas, sejam municipais, estaduais ou nacionais. Estrategicamente, trabalhei na formação dessas mulheres de base, mas também no fortalecimento para que elas possam ir compondo os diversos conselhos deliberativos e consultivos. O objetivo é exigir do poder público que de fato cumpra o que está estabelecido no artigo 6° da Constituição Federal, que define como dever do Estado garantir moradia, saúde, acesso à educação e mobilidade urbana a todos os cidadãos que aqui vivem.
Eu diria que a primeira mudança sistêmica impulsionada a partir do meu trabalho como Fellow Ashoka foi traçarmos uma estratégia de atuação nos territórios, no fortalecimento das mulheres de base, para incidir diretamente nas políticas públicas. Como exemplo, elaboramos uma lei de titularidade da casa em nome da mulher como forma de combater a violência doméstica. E, em 2023, no programa Minha Casa, Minha Vida, elaboramos uma emenda para que as mulheres vítimas de violência sejam atendidas com 100% de subsídio na unidade habitacional em qualquer parte do país. Então, eu acredito que seja uma mudança profunda, porque mexe, inclusive, com a própria estrutura da sociedade civil, gerando transformações na sociedade ou na organização, provocadas intencionalmente por agentes de mudança, como governos municipais, estaduais e nacional. Então, eu
acredito que essa seja a segunda mudança profunda e sistêmica que tenho elaborado e implantado.
Com as mulheres tendo conhecimento de que existe uma lei que as protege e que de fato as ampara, criam-se transformações estruturais em um setor da sociedade ou organização, provocadas intencionalmente por agentes de mudança — ou seja, a sociedade civil atuando diretamente nas mudanças estruturais e patriarcais. É exatamente com isso que eu venho atuando, fazendo com que as mulheres de fato não só tenham conhecimento da legislação, mas principalmente incidam diretamente nas políticas públicas através das ferramentas já existentes. Atuamos nas elaborações de leis e legislações de iniciativa popular, mas também sem perder de vista a pressão popular e a forma de organização dos movimentos populares, que se destacam e vêm ganhando força com o trabalho coletivo, e não apenas com o trabalho individual.
Um trabalho em que eu venho atuando muito forte, e que requer muita habilidade, é a articulação em redes. Como funciona essa articulação em redes? Trata-se de inserir a Secretaria de Mulheres e o debate do acesso ao direito à cidade em diversos níveis. Então, hoje nós temos uma articulação muito grande com as universidades e com os meios de comunicação, mas principalmente como agentes de transformação que possam de fato rearticular toda uma cadeia de mulheres e populações historicamente desfavorecidas, que são as famílias mais vulneráveis.
Estamos estruturando diversos cursos com o Instituto Lincoln, com a PUC, com a Universidade Mackenzie e com a Escola da Cidade, buscando essas parcerias justamente em nível nacional e internacional. Então, esse é um dos principais desafios, mas que eu implementei nessa parceria através da Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste, da União dos Movimentos de Moradia, da União Nacional por Moradia Popular e da Rede Mulher e Hábitat da América Latina e Caribe. Promovemos esses diversos cursos com mais de seis países, abordando como trabalhar o tema de regularização e urbanização até como forma de reparação de danos. Já que vários desses países foram escravizados e, após a abolição da escravatura, o cenário foi marcado pelo abandono estatal — sem políticas de inclusão ou reparação —, os recém-libertos enfrentaram exclusão
social, criminalização da pobreza e marginalização. Com a preferência do Estado pelo trabalho dos imigrantes europeus, várias populações negras, mulheres e homens — em especial as mulheres — ficaram sem terra, sem trabalho e sem acesso a uma moradia digna. Esta é uma forma de vir trabalhando vários temas, apontando que essas populações ainda vivem em lugares precários. A grande maioria das pessoas hoje que vivem em favelas, em cortiços, em morros e em áreas de deslizamentos são famílias pobres e vulneráveis, fruto ainda da escravatura, principalmente aqui no Brasil, que demorou muitos anos para que fossem de fato libertadas, deixando a população negra em situação desfavorecida. E hoje eu venho trabalhando nisso, até porque eu sou mulher negra, vivo na periferia, sou feminista e sei a importância da reparação desses danos causados por esse processo de escravatura no Brasil.
Com as mudanças na dinâmica de mercado e nas cadeias de valor, ocorrem transformações que ampliam o acesso aos bens e serviços, que criam novos mercados ou enfrentam desigualdades estruturais. E para enfrentar uma dessas desigualdades estruturais, eu atuo no fortalecimento das mulheres na formação, na conscientização e nas incidências em políticas públicas, contribuindo para a criação de melhorias e implementação de políticas como legislações, programas e mecanismos de participação social através dos conselhos — como conselhos das cidades, conselhos de políticas públicas para as mulheres e conselhos de saúde.
Esse é um trabalho no qual venho atuando, fortalecendo as mulheres dos territórios para que, incidindo nas políticas (principalmente nas territoriais), possam de fato se fortalecer e avançar nessa construção e na implementação de políticas públicas para as mulheres e para a população negra. As transformações sociais a partir da cultura, do empoderamento de pessoas e do fortalecimento em equipe inspiram mais indivíduos a atuarem pela transformação. E isso eu tenho visto concretamente, principalmente aqui na região Sudeste, em São Paulo, onde estamos mudando a vida de várias mulheres e de várias pessoas — pessoas que vivem em favelas, pessoas que pagam aluguel. Como essas mulheres e essas pessoas, durante o processo de construção de unidades habitacionais (ao qual dedicamos tempo com as formações antes, durante, depois
e seguindo no pós-ocupação), vêm mudando, de fato, de vida. Elas vêm aprendendo que, quando mudam para seu apartamento, para sua moradia digna, e passam por esse processo de formação, transformam-se em agentes transformadoras. Isso muda a ideia de construir políticas públicas, trazendo uma visão mais coletiva de pensar no bairro, de pensar na comunidade, de pensar desde a escola até o transporte e a mobilidade urbana. Isso é muito importante. Então, eu acredito que essa seja uma das ideias que não só os jovens possam aprender, mas as pessoas de meia-idade e os idosos também possam fazer parte desse aprendizado de transformação. É fundamental pensar em transformação também para pessoas idosas e pessoas com deficiência, que precisam de mais cuidados e de mais atenção, inclusive na própria mobilidade, desde o transporte, o caminhar nas calçadas, até o asfaltamento adequado e acessos mais seguros.
Minha experiência como Fellow Ashoka contribui para a jornada de transformação. Eu acredito que a Ashoka não só contribuiu com a minha jornada, mas também ela fortalece toda a rede Ashoka e toda a equipe, principalmente quando realiza encontros, diálogos e reflexões em momentos de escuta onde compartilhamos várias experiências de transformação. Eu tenho aprendido muito com a Ashoka, principalmente quando sou convidada para o processo de avaliação de entrada de novos fellows, que requer um olhar mais refinado e uma escuta onde você pode ouvir o que a pessoa está trazendo de mais enriquecedor. Durante esse processo de entrevista, vai sendo relembrado como foi o seu próprio processo de avaliação para entrar na Ashoka. Então, eu acredito que esse é um dos processos mais ricos que tenho vivenciado como Fellow Ashoka, e isso é muito satisfatório. A cada
processo desse, no processo de avaliação, recebemos, em média, quatro, cinco ou até seis pessoas ao longo do dia. Ao final de cada ciclo, quando todos os convidados que compõem a equipe de avaliação se reúnem para compartilhar suas percepções, é nesse momento que eu sinto a verdadeira riqueza de estar na Ashoka. A troca de experiências e de informações é extremamente enriquecedora.
Ter a oportunidade de ouvir mentes tão brilhantes, cada uma com seu próprio olhar, sua trajetória e sua forma de compreender os desafios, amplia muito a nossa visão. Cada avaliador contribui com uma perspectiva diferente, o que torna as discussões
mais profundas e nos faz refletir sobre aspectos que, sozinhos, talvez não conseguíssemos enxergar. É um espaço de aprendizado constante, de construção coletiva e de crescimento, tanto profissional quanto pessoal. Não só por ouvir essas novas pessoas, mas também por ouvir as pessoas com mais experiência colocando seus relatos, tenho aprendido muito. E sempre repito na nossa comunidade: o conhecimento é algo que só você tem e você pode compartilhar com outras pessoas, mas é algo que ninguém pode tirar de você. O satisfatório de tudo isso é poder ter essa troca de saberes. Tenho aprendido muito com a Ashoka e tenho levado isso para o meu dia a dia, para o meu cotidiano — essa forma não só de aprender, mas também de ensinar aquilo que eu aprendi, e, claro, sempre aprendendo muito mais nas comunidades através dessa troca de saberes.
Como Fellows Ashoka, nós, os mais antigos, podemos inspirar novos parceiros e inspirar os jovens a se juntarem nessa missão. A partir do momento em que as pessoas conhecem aquilo que de fato eu venho atuando e fazendo nas comunidades e nos territórios — e isso é uma atuação que hoje eu não faço apenas nos territórios, mas em nível municipal, estadual e também internacional.
Recentemente, participei do Fórum Urbano Mundial em Baku, no Azerbaijão, em uma atuação global trazendo justamente essa questão do fortalecimento e de como isso vai impactando na vida das mulheres, especialmente das que vivem em situação de vulnerabilidade. Como é trabalhar nos assentamentos informais, que são também uma forma de atuação, e esse debate foi muito bem construído e muito bem elaborado, partindo do ponto de vista que hoje são mais de 1 milhão de pessoas que vivem em situações precárias, em assentamentos precários, não só no Brasil, mas no mundo. Também é uma forma de atuação. Digo que é graças ao trabalho inclusive como meu trabalho como Fellow Ashoka que me deu oportunidade de poder me dedicar à minha vida e com mais tempo para estudar, tempo para pesquisar, tempo para atuar nas bases com as mulheres através da bolsa que eu tive pela Ashoka. E eu consegui fazer isso, e cada vez estou aprofundando mais nesse trabalho.
Hoje, eu estou trabalhando mais intensamente e, principalmente por ordem de prioridades, continuo no trabalho do fortalecimento, da formação e da conscientização com as mulheres, tanto na perspectiva de trabalhar as mulheres com o tema de cuidados nas comunidades, mas principalmente com esse olhar feminista. Porque, quando a gente assume e dá visibilidade ao trabalho como feminista, é um trabalho bem diferenciado, até quebrando esse jeito de olhar que as pessoas têm para o feminismo. Nós, mulheres feministas, hoje conversando com as mulheres nas comunidades, mostrando por que elas se identificam e podem se identificar como mulheres feministas e não mais como mulheres femininas — até pela própria atuação, pelos trabalhos que vêm fazendo nas comunidades, por esse impacto cultural de ir rompendo o machismo e o patriarcado. E atuando como agente transformadora de conscientizar e de formar, mas principalmente de deixar visível que hoje as mulheres ganharam um nível de consciência muito mais elevado e que conseguem vir desenvolvendo esses trabalhos. Digo mais uma vez: não só nos trabalhos locais, mas municipais, estaduais, e também de forma global para ir impondo meu ponto de vista. E,
principalmente porque sou uma mulher negra, venho trabalhando com esses dois temas, de dar visibilidade às mulheres negras, inclusive como autoras negras — como Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Matilde Ribeiro e outras mulheres negras que, na grande maioria das vezes, as nossas universidades não priorizam.
Elas vêm atuando, mas em nenhum momento incentivam que as pessoas que terminam suas graduações, que vão fazer seu TCC, ou escrever suas teses de mestrado e de doutorado, resgatem a história das mulheres negras e dos homens negros como agentes transformadores. Então, eu também venho trabalhando muito nisso. Recentemente, eu fiz um curso de mestrado de estratégia em gênero e feminismo na Universidade de Guatemala e venho trabalhando, justamente, no resgate para dar visibilidade às mulheres negras nos territórios e, principalmente, na academia.
Nessa linha de buscar sinergia e trabalhar com iniciativas e desafios, no momento eu estou em mais uma missão: estou como conselheira nacional das cidades, membra do conselho executivo, mas também representando a sociedade civil no Conselho Gestor de Meio Ambiente no Ministério do Meio Ambiente. São todos trabalhos voluntários, e estamos trabalhando e aprofundando como as questões climáticas vêm impactando na vida das mulheres e na vida da população pobre.
Sou defensora e atuo em várias organizações de caráter nacional, estadual e regional, então, esse é mais um dos meus desafios: aprofundar o conhecimento nas comunidades. Em parceria o com Núcleo de Estudos e Pesquisa com Movimentos Sociais (Nemos), da universidade PUC-SP, implementamos uma pesquisa com 237 mulheres para buscar ver até que ponto essas mulheres de fato estão entendendo e compreendendo como estão sendo impactadas com relação às questões climáticas.
Acabamos de fazer essa pesquisa e vamos lançá-la agora, no dia 18 de julho de 2026, tornando-a pública. Temos muitas novidades com relação a tudo isso. É exatamente isso que eu venho fazendo: venho buscando parceria com as universidades e implementando pesquisas até para poder dar notoriedade, para que, através dessas pesquisas, elas possam se transformar em políticas públicas para incidir diretamente nos territórios. Mais uma vez, sempre pensando nas mulheres, nos idosos, nos jovens e nas crianças das comunidades nos territórios. Esta é uma das minhas grandes novidades, onde estão meus grandes esforços aos quais venho me dedicando.
Também estou tocando, através da Secretaria de Mulheres da União Nacional, mas principalmente pela Rede Mulher e Habitat da América Latina, o que estamos chamando de transferência de conhecimento. Estamos com seis países —eu estou na coordenação, via Rede Mulher e Habitat do Brasil, com mais seis países: Brasil, Argentina, Colômbia, Guatemala, El Salvador e Chile. Nessa transferência de conhecimento, fazemos uma gira, não só de cursos de formação a partir da sua realidade, mas também fazemos visitas nesses países com esse grupo de mulheres que estão fazendo o curso e conhecendo na prática, a partir da metodologia paulofreiriana. A partir da base, buscando todo o conhecimento, e aí ficamos uma semana em visita. Por exemplo, recebemos aqui, em novembro de 2025, mulheres desses países durante uma semana e, juntos, visitamos todos os nossos projetos construídos através de autogestão — projetos de construção de unidades habitacionais —, descrevendo o passo a passo de como conseguimos fazer tudo isso. Recentemente, aqui na associação, pela qual eu estou como coordenadora geral, entregamos uma construção de 50 unidades habitacionais, sendo que 90% são de mulheres chefes de família, e foi construído numa parceria entre a associação e o poder público. Como conseguimos fazer tudo isso para que as mulheres, de fato, possam ser atendidas? Esse é um trabalho onde também eu estou desenvolvendo com esses seis países: como incidir nas políticas públicas, mas sem perder de vista o trabalho da comunidade e todo o trabalho que as organizações vêm fazendo como enfrentamento e incidência nas políticas públicas. Por exemplo, o poder público municipal passa um recurso de igual valor
por unidade habitacional, de 218 mil reais (no programa Pode Entrar), para as grandes construtoras construírem uma unidade habitacional de 42 m². A associação, através dessa parceria, assina o convênio e, com esse mesmo recurso que poderia construir 42 m², construímos 57 m². Além de morar com dignidade, de ter uma moradia digna, essa família também vai ter acesso a uma moradia melhor, maior e com melhor qualidade de vida para as famílias. Essa é a importância do trabalho de construção e autogestão gerido pelas próprias famílias, sendo umas das minhas experiências nas quais eu venho atuando muito forte aqui em São Paulo.
Com relação à transferência de conhecimento, na minha opinião foi um momento de partilha, porque foram mulheres de seis países. Primeiro tivemos as aulas virtuais com a professora Cleo, com a professora Renata, a Evaniza Rodrigues, a Maria de Fátima e a Tania Diniz, onde pude contribuir nessa experiência não só como palestrante, mas como organizadora e coordenadora. Acredito que foi muito enriquecedora porque nós conseguimos ver experiências diretamente dos territórios — experiências desde a construção da moradia, da horta comunitária, da atuação na área rural, mas também na área urbana — de mulheres de vários países.
Mas especialmente com esse olhar de mulheres feministas atuando nos territórios. Trazendo aqui para o Brasil, as mulheres vieram para uma gira de conversa, tanto na atuação na COP 30, trabalhando as questões climáticas, incidindo no debate
inclusive para que pudesse sair na carta final o fortalecimento dos trabalhos com as mulheres com relação aos cuidados. Mas o que mais me deixou muito satisfeita foi ver a quantidade de mulheres aqui no Brasil, de atuações diferenciadas, conhecendo desde a ocupação de terra até os momentos em que essas famílias também estavam sendo despejadas, como a favela do Moinho, onde as levamos para visitar. Pudemos ver como a política estrutural de governo interfere diretamente na vida das pessoas e como impacta na vida especialmente das mulheres. Então, consegui mostrar, como exemplo concreto, como as pessoas pobres viviam ali na favela do Moinho, bem no coração de São Paulo, na área central, e como, quando o governo quer destruir, ele consegue destruir. Como foi o governo do Tarcísio de Freitas aqui em São Paulo ao despejar todas essas famílias,
e a atuação das lideranças de movimentos populares para que, de fato, essas famílias não fossem tão impactadas e conseguissem receber um atendimento humanizado para que pudessem acessar outra moradia. Porque acreditamos que a
moradia é a porta de entrada para todos os outros direitos. Para que elas não perdessem mais um desses direitos, mostramos como os movimentos populares enfrentaram tudo isso e como conseguimos transferir esse conhecimento para as mulheres de outros países. Porque, assim como existe um governo do estado de extrema-direita aqui no Brasil, mais precisamente aqui em São Paulo, existe também em outros países; essa é uma questão. A segunda foi como nós fomos trabalhando com essas mulheres em todas as visitas, mostrando em cada um dos nossos conjuntos habitacionais — como o projeto habitacional aqui da região Sudeste, o Dandara, onde construímos 50 unidades habitacionais — como foi todo o processo para conseguir essa construção. Mas também como conseguimos conquistar todo o Jardim Celeste aqui, onde construímos mais de 1.500 unidades
habitacionais, beneficiando indiretamente mais de 5 mil pessoas, sendo que a grande maioria são mulheres ou são populações negras e pobres dentro dessa comunidade. Como fomos fazendo passo a passo para cada uma dessas conquistas e demonstrando como é trabalhado o engajamento da população nos bairros e nas comunidades, mas também como fazer com que incidam diretamente nas políticas públicas sem perder de vista a pressão popular, os trabalhos coletivos e o trabalho de formação e conscientização nas comunidades.
Acredito que essa atividade de transferência de conhecimento foi o que mais enriqueceu esse curso, essa atividade aqui no Brasil. E, a cada vez que eu ouvia uma mulher de cada país — da Colômbia, ou de El Salvador, da Guatemala — fazendo perguntas enquanto íamos explicando, elas sempre tinham os questionamentos: "Nossa, agora eu entendi por que tem que ser desse jeito, por que tem de ser de outro jeito". Ou quando nossas mulheres brasileiras perguntavam como que elas faziam para poder conquistar as coisas no país onde elas habitavam, elas explicavam e víamos similaridades: "Ó, isso é legal, isso a gente
pode adaptar aqui no Brasil e também fazer isso, ou mesclar as duas experiências para poder melhorar o que a gente já vem fazendo aqui no Brasil". Então, eu acredito que essa transferência de conhecimento foi exatamente uma das coisas mais
enriquecedoras de que já participei ao longo desses vários anos.
Em resumo: Ao olhar para minha trajetória, percebo que nenhuma transformação foi construída individualmente. Cada conquista nasceu da organização coletiva, da educação popular e da coragem de milhares de mulheres que decidiram ocupar espaços políticos e reivindicar seus direitos.
Continuo acreditando que transformar territórios significa fortalecer pessoas para que sejam protagonistas das mudanças em suas próprias comunidades. É esse compromisso que sigo assumindo todos os dias: construir cidades mais justas, democráticas, sustentáveis e comprometidas com a vida das mulheres, da população negra e das comunidades populares.
Eu vejo o futuro no campo da minha atuação nos próximos 10 anos. Eu acredito que a gente possa avançar nas comunidades, nos territórios e no trabalho com as mulheres por mais incidência nas políticas públicas, mas principalmente no acesso ao direito à cidade. Visualizo um país mais justo e igualitário, pelo qual homens e mulheres possam caminhar juntos, com menos violência, com menos machismo e com menos feminicídio — essa é a minha esperança para daqui a 10 anos. Espero também que possamos incidir nas políticas públicas, principalmente com relação às questões climáticas que vêm impactando muito a vida dos seres humanos e dos seres vivos em geral no planeta. Que possamos, daqui a 10 anos, ter plantado mais verde, com menos desmatamento e menos poluição, e que possamos incidir, principalmente, na transformação com relação à adaptação e à
resiliência no acesso ao direito à cidade, partindo do ponto de vista de gerar menos impacto climático, não só no Brasil, mas no mundo.
Compartilho com vocês o que eu penso com relação ao que queremos ao esperar novas narrativas de futuro. Ao imaginar um mundo nos próximos 5 anos, considerando as transformações que vivemos e promovemos, a imaginação se mostra como um passo essencial para moldar a realidade. Partindo desse princípio, eu acredito que daqui a 5 anos, no trabalho que eu venho desenvolvendo aqui na região do Ipiranga, na Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste, assim como na União dos Movimentos de Moradia do Estado de São Paulo e interior, na União Nacional por Moradia Popular e na Rede Mulher e Hábitat — lembrando sempre que o nosso trabalho não é individual, mas coletivo —, eu possa continuar inspirando e transformando mais jovens, adultos e também pessoas que estão hoje na terceira idade, cujo número é razoável. O objetivo é que todos possam continuar incidindo nas políticas públicas, mas principalmente na reparação de danos para a população negra, para as mulheres e, sobretudo, para as mulheres negras que vivem nas comunidades e nos territórios. Essa é a minha esperança
daqui a 5 anos. Eu sempre brinco com o verbo esperançar. Então, esse esperançar é acreditar que as pessoas possam viver com dignidade e com acesso ao direito à cidade por meio da incidência nas políticas públicas, mas principalmente que mulheres e homens possam viver com menos violência doméstica. Que acabe de vez a questão do feminicídio para que as mulheres possam viver plenamente, com plenitude, desde as meninas mais jovens até as mulheres da terceira idade.
Eu espero poder contribuir com a Ashoka nesse trabalho de incentivar mais jovens, mulheres e idosos na perspectiva de um mundo de pessoas que transformam, além dos novos paradigmas que desenvolvemos com as nossas comunidades. Toda
criança pratica empatia e todo jovem é um agente de transformação, mas, mais do que isso, desejo que todas as pessoas, em especial as mulheres, sejam, de fato, agentes de transformação para construirmos uma sociedade mais justa e igualitária.