Débora Barenboim-Salej

Débora Barenboim-Salej

Tempo de ditadura

Eu tirei notas altíssimas no vestibular. Aí eu fui chamada para a segunda fase, em Brasília. Fui com a minha neném de dois anos e a minha mãe para tomar conta dela. Já no exame médico eu fui morrendo de medo, porque se fazia o exame médico no Hospital Militar de Brasília. Só de entrar lá… Eu acho que vocês que vivem hoje no Brasil não têm ideia do que era o medo da repressão naquela época. Era uma coisa muito forte e a gente realmente sentia, porque sabia o que acontecia com as pessoas. Fiz exame médico e depois marcaram entrevistas.

Tinha uma banca de entrevistas, que era formada por um embaixador chefe da banca, uma pessoa do meio acadêmico e um colega, que era chefe de uma divisão que chamava DSI [Divisão de Segurança e Informações], que fazia o vínculo com o SNI [Serviço Nacional de Informações], o órgão de repressão política do governo militar. Pelos colegas que fizeram entrevista no primeiro dia eu fiquei sabendo que o presidente da banca fazia uma pergunta sobre um tema de atualidade para o candidato discorrer sobre ele. Quando chegou na minha vez, quem fez a pergunta foi o diplomata que trabalhava na divisão da DSI, do SNI: “O que a senhora acha do terrorismo palestino?” “Eu conheço o problema palestino, eu sei das dificuldades do povo palestino, tenho muita simpatia pela dificuldade do povo palestino e entendo que em situações extremas as pessoas sejam levadas a atitudes extremas. Eu não compartilho, mas entendo.” Ele falou: “Mas a senhora, então, é a favor do terrorismo?” “Não, de jeito nenhum, senão minha presença aqui não se justificaria. Mas posso dizer só que eu entendo, porque é uma situação complexa.” Aí eles ficaram mudos olhando para a minha cara e me mandaram embora.

O diretor do Instituto Rio Branco me chamou e disse: “Eu estou muito decepcionado, porque pelas suas notas, pela sua experiência, eu apostava muito na senhora, mas nós temos provas de que o seu marido participou de organização terrorista e coisa muito pior.” O “coisa muito pior” até hoje eu não sei o que é, mas o fato é que eu fui reprovada na segunda fase, peguei minha filhinha e voltei para Paris. Em 1979, quando teve anistia, me apresentei de novo para o concurso e passei.

Minibiografia

Débora Vainer Barenboim-Salej nasceu na cidade de São Paulo em 2 de maio de 1949. Passou a infância em Buenos Aires. Voltou a São Paulo e mudou-se para a França acompanhando o namorado, militante da oposição à ditadura militar. Obteve a licenciatura em Letras pela Sorbonne Nouvelle de Paris e retornou ao país em 1978, para ingressar, no ano seguinte, no Instituto Rio Branco. Ao longo de sua carreira no Itamaraty serviu nas embaixadas em Washington, Paris, Viena, Cidade do México, Porto Príncipe (Haiti) e Libreville (Gabão), transitando entre as áreas política, econômica e comercial. Exerceu diferentes cargos na Secretaria de Estado das Relações Exteriores. Foi chefe da Assessoria Parlamentar do Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal, e do Ministério da Fazenda; chefe da Divisão da Europa II; conselheira na Embaixada em Paris; e ministra-conselheira na Embaixada em Viena. Foi nomeada embaixadora em Liubliana, Eslovênia, em 2008, e posteriormente cônsul-geral na Cidade do Cabo, África do Sul. Também foi chefe dos Escritórios de Representação do Itamaraty em Minas Gerais (EREMinas) e em São Paulo (Eresp). Exerceu ainda o cargo de secretária-adjunta de Relações Internacionais do município de São Paulo (2021).

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