
Eu estava na Divisão Política, com todos aqueles assuntos importantes, Assembleia-Geral da ONU, discursos do ministro. Quando eu soube que tinham aberto voluntariado para aqueles que quisessem ir para Brasília – o Itamaraty ia ter em Brasília um grupo pequeno, de três, quatro pessoas só, era para atender o Jânio Quadros – resolvi me candidatar.
No Divisão Política me disseram: “Você está cometendo um grave erro, vai mergulhar no anonimato, você vai lá para os sertões de Brasília, vai se tornar desconhecido, esquecido, antes de ser conhecido. E aqui é que é o cérebro das decisões, se você ficar aqui você logo vai se notabilizar numa carreira como a do Itamaraty, que é de meritocracia, você vai se distinguir pelo que escrever. Se você for para lá você está liquidando a sua carreira.”
E foi o contrário que aconteceu. Mas eu tinha tomado a decisão porque nessa época eu já estava noivo. Nós estamos casados, Marisa e eu, desde 1961. No Rio de Janeiro eu não tinha condições de me casar, porque eu ganhava muito pouco, não dava para ter um apartamento.
Em Brasília você tinha acesso a um apartamento de três quartos, tinha um aluguel pequeno, todo mobiliado, pagavam o dobro do salário, chamava-se dobradinha [remuneração dobrada], porque era difícil, ninguém queria ir.
Brasília na época era só um terreno de terraplenagem, tudo terra vermelha, não tinha uma árvore, ao meio-dia você ficava com o colarinho todo vermelho, tinha que trocar de camisa. Era uma cidade difícil, às vezes faltava açúcar, faltava arroz, era muito sacrificado.
Eu nunca tinha visto um ministro na minha vida. Lá havia muito pouca gente. O que havia? O Supremo Tribunal, o Congresso, quando se reunia, uma vez por semana, que era muito, o presidente de vez em quando estava lá, mas quando ele estava lá os ministros todos tinham que ir.
O ministro uma vez foi até almoçar na minha casa, coisa que no Rio de Janeiro jamais teria acontecido. Então, ao contrário do que tinham me vaticinado, eu passei a conhecer todo mundo, porque em Brasília só tinha dois cinemas, dois restaurantes, todas as pessoas frequentavam. Eu, por exemplo, fui uma das primeiras pessoas a saber da renúncia do Jânio Quadros.
Nascido na cidade de São Paulo em 1 de março de 1937, Rubens Ricupero cursou Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), sem concluí-la, ingressou no Instituto Rio Branco e iniciou sua carreira no Itamaraty em 1961. Como diplomata, passou por diversos postos, como Viena, Buenos Aires e Quito, tendo sido embaixador em Washington (1991-1993) e em Roma (1995). Em 1995 foi eleito Secretário-Geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), cargo que ocupou até 2004, atuando também como subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Ao longo de sua carreira no serviço público ocupou cargos de relevância no cenário político nacional, tendo sido nomeado assessor internacional do presidente eleito Tancredo Neves (1984) e assessor especial do presidente José Sarney, entre 1985 e 1987. No governo do presidente Itamar Franco (1993-1994) assumiu o cargo de ministro do Meio Ambiente e da Amazônia Legal e foi ministro da Fazenda entre abril e setembro de 1994, responsável pelo lançamento da nova moeda, o Real, em 1º de julho de 1994.
Figura pública conhecida, atuou como professor de Teoria das Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB) e de História das Relações Internacionais do Brasil no Instituto Rio Branco. Dentre artigos e livros publicados, Rubens Ricupero é autor da obra de referência A diplomacia na construção do Brasil (1750 - 2022) e da autobiografia Memórias: Antes do fim.
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