
– Nesse período chefiando a missão na ONU quais foram os principais temas colocados?
Primeiro, quando eu cheguei, a gente no Conselho de Segurança ainda estava discutindo o Iraque. O Celso Amorim estava terminando o período dele e foi pedido ao Conselho de Segurança para montar um painel para estudar a situação do Iraque, porque o Saddam Hussein [1937-2006, então presidente do Iraque] tinha expulsado os comissários que investigavam se havia ou se deixava de existir uma arma de destruição em massa lá.
O Celso fez um relatório, propondo uma nova comissão, e quando eu cheguei o tema era essa nova comissão. Eu participei da discussão de como essa comissão atuaria, mas ela veio pronta, houve só ajustamento do Conselho de Segurança.
O outro tema do Conselho que também me chamou a atenção era o tema de Angola. Você tinha a Unita [União Nacional para a Independência Total de Angola] matando gente. A guerra ainda estava a pleno vapor e mesmo depois que a gente saiu do Conselho o tema ainda era objeto de preocupação nossa, porque o Kofi Annan [1938-2018, então secretário-geral da ONU], imaginava que a gente pudesse ter uma influência qualquer na solução do conflito.
Uma das discussões mais interessantes que eu acompanhei foi a discussão da intervenção humanitária, em função daqueles conflitos todos no Oriente Médio.
Começou a ideia de que o Conselho de Segurança podia intervir nos países quando houvesse uma situação humanitária clamorosa. Gerou-se um enorme debate para aprovar essa ideia. Nunca foi aprovada.
A ideia persiste, mas a maneira de implementar é impossível, porque esses conflitos internacionais, por mais que seja dramática a situação humanitária, e você está vendo Gaza agora, é o poder político que vai resolver.
Aquilo é um moto-contínuo, todo dia tem uma coisa diferente, mas é um bom lugar para entender o mundo. Não resolve os problemas do mundo, mas ajuda a entender o mundo.
Um grande problema da ONU é o choque entre o multilateralismo, a legitimidade que o multilateralismo traz, e a realidade do poder. É muito frustrante, às vezes você vê coisas que não caminham por conta dessa perversidade. O realismo às vezes é perverso.
Gelson Fonseca Júnior nasceu no Rio de Janeiro em 6 de setembro de 1946. Fez faculdade de Direito na Universidade Estadual da Guanabara (atual UERJ, Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Trabalhou no Itamaraty entre 1968 e 2016, quando se aposentou. No Brasil, ocupou importantes cargos, como o de chefe de gabinete do ministro das Relações Exteriores, subsecretário-geral de Assuntos Multilaterais Políticos, coordenador da Conferência Rio-92 e inspetor-geral do Serviço Exterior. Também trabalhou no Palácio do Planalto como assessor diplomático dos presidentes Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso. Gelson serviu na missão brasileira junto às Nações Unidas, em Genebra, e foi nomeado embaixador em Santiago (2003-2006) e cônsul-geral em Madri (2006-2009) e no Porto, entre 2012 e 2016. Foi professor de Teoria das Relações Internacionais no Instituto Rio Branco entre 1980 e 1998 e também presidiu a Fundação Alexandre de Gusmão (Funag). Fundou o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e atualmente dirige o Centro de História e Documentação Diplomática (CHDD) da Funag. Tem diversos trabalhos e livros publicados sobre diplomacia e relações internacionais, com destaque para "A legitimidade e outras questões internacionais: poder e ética entre nações" e "O interesse e a regra: ensaios sobre o multilateralismo".
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