Fausto Martha Godoy

Fausto Martha Godoy

A Argentina se descobre latina

Eu adoro a Argentina. Quando eu vejo um brasileiro falar mal da Argentina eu fico bravo, porque os argentinos são cultíssimos, são diferenciados, são, são, são.

Peguei a Guerra das Malvinas de cabo a rabo.

No dia da inauguração de uma Feira do Livro, em 1982, aconteceu a invasão das Malvinas. A escritora Nélida Piñon tinha sido convidada para o nosso pavilhão. Eu era chefe do Setor Cultural.

Estávamos lá e aí tocou o hino nacional. Normalíssimo, era a inauguração da feira: “Oid mortales, el grito sagrado...”. E, de repente, chegou uma voz de mulher, não vou jamais esquecer: “En este momento sagrado, la República Argentina rescató su soberanía sobre las Islas Malvinas!” A Marinha argentina tinha invadido a capital, Port Stanley.

No dia seguinte tinha uma entrevista com o Ernesto Sabato, um grande escritor, famosíssimo e contrário ao governo. Eu vi, com a Nélida, que ele estava com a camisa: “Porque las Malvinas son nuestras, las Malvinas son argentinas”. Um homem procurado pelo governo, mas quando você passa acima de todos os conceitos, a nacionalidade...

A Embaixada do Brasil representava os interesses da Argentina junto ao governo britânico. E a Embaixada da Suíça vice-versa. Os argentinos não tinham contato com os britânicos. Toda a interlocução era feita por nós.

Ganhei muito poncho. Ia para uma festa: “A comunidade italiana pela Argentina...”, ganhava um poncho. “A comunidade sei lá o quê pela Argentina”, ganhava outro poncho. Mas essas mesmas pessoas que estavam nessas festas dando poncho, no dia seguinte estavam na fila do consulado para pegar passaportes da nacionalidade italiana: “Eu sou italiano, por si acaso...”

E foi quando eles descobriram que eram latinos, porque foram abandonados pela Europa. Dona Margaret Thatcher pegou e aliciou os americanos e todo mundo. Até os próprios uruguaios, porque os aviões paravam por ali.

Essa latinidade real é muito recente. Eles não são arrogantes, eles não querem ser europeus, eles ainda são europeus. Hoje, cada vez menos, claro, depois de tudo que aconteceu.

Esse condimento estrangeiro versus nacional, esse nacionalismo buscado é uma coisa muito importante para entender a Argentina.

Minibiografia

Fausto Martha Godoy nasceu em Bauru, São Paulo, no dia 28 de junho de 1945. Formou-se em Direito em 1968 e obteve doutorado em Direito Internacional Público na Universidade de Paris (Paris I) em 1971. Ingressou na carreira diplomática em 1976. Sua trajetória é marcada por forte interesse e atuação na Ásia. Serviu em diversas embaixadas importantes, incluindo Bruxelas (1978), Buenos Aires (1980), Nova Déli (1984); Washington (1992), Pequim (1994-1997) e Tóquio (2001).
Em 2004 foi nomeado embaixador do Brasil junto aos governos do Paquistão e, posteriormente, do Afeganistão. Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e em Taiwan e foi cônsul-geral do Brasil em Mumbai, Índia (2009). Após sua aposentadoria do Ministério das Relações Exteriores, em 2015, Fausto Godoy passou a lecionar Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo, onde criou um Núcleo de Estudos Asiáticos. Ele também é conhecido pela vasta coleção de arte e etnologia asiáticas, acumulada ao longo de sua vida, e que tem sido objeto de exposições. Com o objetivo de fomentar o conhecimento sobre o continente asiático, Fausto doou grande parte deste acervo, que pode ser visto em exposição no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba.

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