Maria Celina de Azevedo Rodrigues

Maria Celina de Azevedo Rodrigues

Os ossos do ofício

Sempre fui a filha do meu pai, sempre fui de dar palpite, de falar, de me rebelar. Eu era considerada uma rebelde na época. Agora, eu acredito em defender e proteger a carreira, porque as pessoas não sabem em que estão se metendo. Muita gente tem uma concepção errada daquilo que é a carreira diplomática. Eles acham que a carreira é só embaixada, luxo, recepções. Não, vai muito além disso. Vai desde acudir ao brasileiro que migrou, que foi preso, que não pôde entrar no país, até proteger o teu setor de café, cacau, banana, para garantir que eles não serão discriminados. No setor de mármore, por exemplo, eu tive um caso quando eu cheguei na Comissão Europeia.

Eles estavam querendo mudar os critérios técnicos para ver se o mármore podia entrar com uma tarifa X ou com uma outra. Essa mudança era marota, porque o processo de consolidação do mármore era diferente do processo que nós usávamos, mas o mármore era o mesmo, a composição da rocha era a mesma. Eu passei um fim de semana – e a gente não ganha hora extra –, mas passei um fim de semana trabalhando com as pessoas que vieram do Brasil para entender tudo aquilo, dissecamos todo o negócio.

Eu já vinha estudando esse negócio e quando cheguei na reunião dos técnicos da União Europeia, eu me lembro que uma das coisas que eu disse foi: “Senhor Presidente, se os meus técnicos tivessem feito um trabalho tão precário e tão pouco sério, eu já teria despedido todos eles. Felizmente, esse não é o meu caso, é o de vocês”. Tem horas que pedem de você um pouco de dureza. E ganhamos. Ganhamos e eles não aplicaram a tarifa, não puderam aplicar. Eu protegi o setor que ia ficar desempregado, que não ia ter mais o mercado europeu. Nem todos iam ficar, mas ia reduzir barbaramente.

É a tal história: essa era a visão que eu tinha da carreira, de ajudar, de uma forma ou de outra, a preservar empregos, a promover o Brasil, a promover a imagem do Brasil. Tudo isso, para mim, sempre foi o meu norte. E eu pude, na ADB, ajudar. Então, os jovens me procuram hoje porque eles sabem disso, e pedem para eu me manifestar. Eu dou minha cara a tapa constantemente.

Minibiografia

Maria Celina de Azevedo Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro em 27 de janeiro de 1942. É filha do embaixador brasileiro Jayme Azevedo Rodrigues, que em julho de 1964 teve a carreira diplomática abreviada pela decretação de aposentadoria compulsória e a cassação de seus direitos políticos por ter manifestado abertamente oposição à ditadura militar. Maria Celina ingressou no Itamaraty em 1970, após ter concluído o curso do Instituto Rio Branco. Foi inicialmente lotada na Divisão de Política Comercial, onde trabalhou de 1970 a 1973. Em 1973 foi promovida a segunda-secretária e, subsequentemente, removida parar a Missão do Brasil junto às Comunidades Europeias, onde trabalhou até 1977. Em seguida, foi removida para a Embaixada do Brasil em Bogotá, tendo permanecido no posto até 1982. No ano de 1988 defendeu tese no Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, intitulada “Uma política brasileira para a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial”. No mesmo ano foi removida para o Cairo, onde exerceu a função de ministra-conselheira na Embaixada do Brasil. Em 1999 foi promovida a ministra de primeira classe. Nomeada embaixadora do Brasil em Bogotá, aí permaneceu de 2002 a 2005. Posteriormente, chefiou a Missão do Brasil junto à Comunidade Europeia e chefiou o Consulado do Brasil em Paris. Já aposentada da carreira diplomática, Maria Celina tornou-se em 2018 presidente da Associação dos Diplomatas do Brasil (ADB), entidade de representação dos diplomatas que ajudou a fundar na década de 1990.

Clique aqui para acessar essa história na integra.

Conte sua história