Luiz Antonio Fachini Gomes

Luiz Antonio Fachini Gomes

Irã e Guatemala

Depois eu fui convidado para ir ao Irã como embaixador. Quando o secretário-geral, que estava em Londres, transmitiu o convite, eu falei: “Eu vou consultar a minha esposa, porque ela me disse que não quer ir nunca para um país que tem terremoto ou para um país muçulmano…” O Irã tinha as duas coisas, mas aí eu falei com ela, que disse: “Não, mas ir para o Irã é diferente…”

Aceitei e fomos com várias informações totalmente depreciativas do Irã. Foi aí que eu vi o que é uma imprensa ocidental falar de um país que é considerado inimigo, eram as piores informações. E chegar lá é muito surpreendente, porque a única coisa que chamava mais atenção, que realmente havia razão de críticas da parte ocidental, era o fato de as mulheres terem de andar com a cabeça coberta.

É uma teocracia, a lei é fundada com base no Alcorão. A gente pensava que seria um povo muito fechado e, ao contrário, é um povo mais aberto que o brasileiro. De você sair na rua e as pessoas te cumprimentarem, começarem a conversar com você e dez minutos depois já te chamarem para ir a casa delas para tomar café, chá.

E é uma cultura muito forte. É um povo que fala a mesma língua [persa ou farsi] de 2.500 anos atrás, claro que com mudanças, foram invadidos algumas vezes, mas, pelo menos, nunca mudaram a língua. Mudaram a religião. Eram zoroastristas e viraram muçulmanos. Mas xiitas, mudaram um pouco o islamismo.

Depois do Irã eu fui para a Guatemala. Foi muito interessante, um país muito difícil. Quando eu fui para o Irã todo mundo se preocupava com a minha segurança. Quando eu fui para a Guatemala, ninguém mais se preocupava. E é exatamente o oposto, porque o Irã é o país mais seguro onde eu já morei. Talvez a ditadura impeça os assaltos.

Mas na Guatemala havia uma violência muito grande, uma miséria muito grande. Teve um momento em que o Haiti era melhor que a Guatemala em termos, por exemplo, de mortalidade infantil. A Guatemala tinha muitos problemas de segurança. Nas lojas todas tinha alguém com metralhadora e grades nas portas. Aquilo choca.

Fico imaginando como os americanos deixaram seus vizinhos chegar a esse ponto e depois ficam reclamando da imigração. É claro que todo mundo de lá quer ir para os Estados Unidos. Porque a miséria e a violência são tão grandes.

Minibiografia

Luiz Antonio Fachini Gomes nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 29 de outubro de 1945. Em 1964, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar a Faculdade Nacional de Direito da então Universidade do Brasil (atual UFRJ), vislumbrando também a aprovação no concurso do Instituto Rio Branco. Ingressou no Itamaraty em 1971, atuando em várias áreas na Secretaria de Estado de Relações Exteriores, em Brasília. No exterior, serviu nos postos de Viena e Praga, trabalhou na Organização das Nações Unidas, em Nova York, e foi encarregado de negócios em Pretória, ainda no contexto do regime de apartheid na África do Sul. Também foi chefe da delegação do Conselho da Organização Internacional do Café (OIC), em Londres. Na posição de chefe de posto, foi cônsul-geral em Sydney, Austrália, tendo sido também adido olímpico durante o período de realização dos Jogos Olímpicos nessa cidade, em 2000) e embaixador do Brasil em Teerã, na Cidade da Guatemala e, por fim, em Túnis, onde viveu os efeitos da Primavera Árabe na Tunísia, em 2011.

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