
Nova York... todo diplomata quando ia para o exterior a primeira coisa que fazia era sair daqui, começava a ganhar em dólar, passava pelo menos uns 15 dias em Paris e em Roma.
Eu estava em Brasília com a minha família, naquela época eu tinha um filho só, e recebi uma carta de um colega meu chamado Igor Torres-Carrilho dizendo o seguinte: “Não vá para Paris, venha direto para o posto, não gaste um tostão e chegue aqui com dinheiro, porque eu fiz o contrário, eu fui para Paris e cheguei aqui, tive que fazer empréstimos, e foi um desastre.”
A orientação desse colega foi providencial.
O comércio de Brasília naquela época e o comércio no Brasil... Nova York era um fascínio absoluto, porque você ia às lojas, tinha Macy’s, o Gimbels, o Bergdorf Goodman, o Saks, uma tentação incrível, porque tudo de que você estava privado no Brasil você tinha lá.
Esse meu colega disse: “Cuidado, a sua mulher vai enlouquecer aqui com as compras, você tem que gastar esse dinheiro rapidamente, se você deixar o dinheiro no banco você vai ficar a zero.”
Importei um Mercedes caríssimo para poder imobilizar o dinheiro, para não ficar com o dinheiro no banco, senão a gente gastava, a minha mulher e eu. Foi uma coisa fantástica, porque esse automóvel, que era muito bom, nós tivemos por dois anos e quando eu vendi ainda ganhei 200 dólares.
Com dois anos nós conseguimos nos educar em relação ao mercado americano, a gente já não tinha a sedução de comprar qualquer coisa.
Eu peguei uma época muito interessante, que foi a época da revolução na Universidade Columbia, os estudantes da Columbia invadiam a diretoria e isso era uma coisa que não havia nos Estados Unidos, foi a primeira manifestação.
Também nessa época foi muito importante o lançamento da minissaia. Um professor me salvou de grandes problemas, porque na aula ele disse: “Você tem que urgentemente comprar um óculos Rayban espelhado. Se você for surpreendido olhando para as pernas de uma das suas colegas você vai ter problema de assédio sexual.” Porque nos Estados Unidos você olhar no olho da pessoa já é assédio.
José Jerônimo Moscardo de Souza nasceu em 6 de novembro de 1940 em Fortaleza. Mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar no Colégio Pedro II em regime de internato. Fez faculdade de Direito e em 1961 ingressou no Instituto Rio Branco. Já no início da carreira foi nomeado secretário pessoal, entre 1965 e 1967, do primeiro presidente do regime ditatorial instaurado em 1964, o general Humberto de Alencar Castelo Branco. Seu primeiro posto no exterior foi em Nova York, junto à delegação brasileira na Organização das Nações Unidas. Posteriormente foi nomeado embaixador do Brasil em San José, em Bucareste e em Bruxelas. Também atuou como representante permanente do Brasil junto à Associação Latino-Americana de Integração (Aladi) e à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em 1993, foi ministro da Cultura durante o governo do presidente Itamar Franco. Presidiu a Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) de 2006 a 2010. Depois da aposentadoria no Itamaraty, tem-se dedicado ao projeto Filosofia na Praia, que promove debates quinzenais gratuitos sobre o assunto na Praia do Leme, no Rio de Janeiro.
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