José Alfredo Graça Lima

José Alfredo Graça Lima

Alimentos estratégicos

O Mercosul, o Brasil em particular, graças à produção e exportação de soja, milho e do agronegócio em geral, é capaz de produzir os maiores saldos comerciais. Aliás, eu fiz um policy paper em que eu procuro demonstrar que o único fato efetivamente relevante e determinante do comércio internacional – e do próprio sistema internacional como um todo – foi a ascensão da China.

Do ponto de vista comercial, o momento em que a China entra para o OMC e passa a se beneficiar do tratamento de nação mais favorecida, coincide com um certo declínio da produtividade dos Estados Unidos nas indústrias intensivas em mão de obra, e leva à situação em que a gente está hoje, que é essa tentativa bem canhestra, desastrada, de recuperar ganhos perdidos nessas indústrias, ao passo em que a China está fazendo progresso nessas indústrias intensivas em mão de obra, mas também intensivas em capital.

A China hoje é uma questão suprapartidária nos Estados Unidos. Durante o governo Joe Biden, não houve nenhum refresco com relação à OMC, não houve nenhuma tentativa sequer de fortalecimento, de apoio ao multilateralismo, tudo por causa da presença da China. E olha que a China, se você olhar sob esse ângulo, só fez bem. Fez bem ao Brasil a demanda chinesa por commodities, que também foram valorizadas. Porque alimentos são efetivamente estratégicos: você pode passar sem carro, sem internet, você pode passar sem todos esses avanços tecnológicos, mas não pode passar sem alimentos. Não inventaram ainda nada que pudesse substituir o alimento. Nesse ponto o Brasil tem uma vantagem sobre todos os demais. Pega sob o lado financeiro, mas se você olhar em termos de economia real, nós estamos “bem na fita”. Só não estamos bem do ponto de vista de gestão, porque um país que produz tanto alimento como o Brasil não pode ter fome. Não posso deixar de considerar isso porque acho que até a própria diplomacia tem que contribuir para o atingimento dos objetivos permanentes do Estado. Os preços no Brasil são muito altos e o país é muito desigual. Não há justificativa para isso.

Minibiografia

José Alfredo Graça Lima nasceu em 21 de abril de 1946 no Rio de Janeiro. Cursou Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e ingressou no Instituto Rio Branco em 1968. No Itamaraty, especializou-se no ramo da diplomacia econômica e de promoção comercial, tendo trabalhado, já no início da carreira, na Divisão de Produtos de Base. Posteriormente, integrou e chefiou delegações brasileiras em importantes rodadas de negociação comercial, como as do Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), constituída na década de 1990. Trabalhou também nas negociações para a formação do Mercosul. Na condição de subsecretário-geral para Assuntos de Integração, Econômicos e de Comércio Exterior, de 1998 a 2002, foi responsável pelas negociações comerciais bilaterais, plurilaterais, birregionais e multilaterais do Brasil e do Mercosul. Em 2002, foi representante permanente junto às Comunidades Europeias, em Bruxelas. Também assumiu as funções de cônsul-geral em Nova York (2005-2008) e em Los Angeles (2008-2012). Entre 2014 e 2016 foi subsecretário-geral de Política II, setor que abrangia Ásia e Pacífico, e nessa condição atuou como um dos representantes brasileiros no Brics. Foi professor titular de Organizações Econômicas Internacionais no Instituto Rio Branco entre 2013 e 2016 e presidiu a banca examinadora do Curso de Altos Estudos (CAE) do Rio Branco de 2016 a 2019.

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