
O Itamaraty nunca achou que mulher servisse para ser diplomata. Era a mentalidade da época. Mas a primeira funcionária pública no Brasil, Maria José de Castro Rebello Mendes, foi do Itamaraty. Em 1918, com a viuvez da mãe, ela achou que tinha de trabalhar e quis ser funcionária do Itamaraty – porque existiam três carreiras: funcionários, consular e corpo diplomático. E o concurso era para funcionária da Secretaria de Estado, à época no Rio de Janeiro. Mas o Itamaraty não aceitava mulheres no concurso.
Ela era baiana e teve acesso ao jurista Rui Barbosa, que deu um parecer favorável porque a Constituição dizia: “Brasileiros natos poderão ser diplomatas”. Rui Barbosa sustentou que “brasileiros” é comum de dois gêneros, homem e mulher. Então, não há proibição às mulheres e, assim, ela passou no concurso para a Secretaria de Estado em primeiro lugar. Depois essa senhora se casou com um diplomata e não fez carreira.
Um dia, lendo um livro do historiador Câmara Cascudo, vi uma carta da Bertha Lutz, feminista famosa, a mulher que começou com a reivindicação de voto para as mulheres no Brasil. Ela escreveu para o Cascudo: “Eu não fui a primeira funcionária pública do Brasil”. A Bertha era antropóloga do Museu Nacional. Ela disse: “A primeira foi Maria José de Castro Rebello Mendes.” E contava a história dela. Foi assim que comecei a pesquisar a Maria José e levantei toda a história das mulheres no Itamaraty. Maria José hoje é reverenciada pelas mulheres como sendo a primeira funcionária pública do Brasil. E trabalhou no Itamaraty.
O Itamaraty teve uma relação muito complicada com o casamento. Tanto que a última norma discriminatória desapareceu em 1996. Foi uma lei que estabeleceu salários iguais para homem e mulher. Até então diziam que o casal não tinha de ganhar igual porque, com a mulher trabalhando, a verba de representação era uma só para o casal. Só em 1996 foi decidido: “Trabalho igual, salário igual.” A partir daí desapareceu a última discriminação legal. Mas a discriminação de fato continua até hoje.
Thereza Maria Machado Quintella nasceu no Rio de Janeiro em 27 de maio de 1938. Fez a faculdade de Letras Neolatinas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Instituto Santa Úrsula (1958) e no ano seguinte ingressou no Instituto Rio Branco. Em 1961 foi designada para Secretaria de Estado das Relações Exteriores, instalada no Palácio Itamaraty do Rio de Janeiro. Começou sua carreira como assistente do secretário-geral-adjunto para Assuntos Econômicos, trabalhando posteriormente em outras áreas. No exterior, foi inicialmente removida para a Argentina, onde exerceu as funções de vice-cônsul na cidade de Baía Blanca (1964-1966). Em seguida, trabalhou em Bruxelas, na missão brasileira junto à Comunidade Econômica Européia (CEE). No ano de 1970 foi a diplomata representante do Brasil no seminário das Nações Unidas sobre a Participação das Mulheres na Vida Pública de Seus Países, em Moscou. Nas décadas seguintes participaria ativamente de conferências e fóruns de debate sobre os direitos das mulheres e o enfrentamento das desigualdades de gênero, postura que se refletiria também na sua trajetória dentro do Itamaraty. Foi posteriormente removida para Montevidéu, onde integrou a delegação junto à Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc), e para Londres, onde trabalhou como cônsul-geral, atuando também como ministra-conselheira na representação junto aos organismos econômicos multilaterais. Em 1987 tornou-se a primeira mulher a dirigir o Instituto Rio Branco e foi promovida ao posto de ministra de primeira classe. Foi embaixadora em Viena de 1992 a 1994, trabalhando como representante permanente junto aos órgãos da ONU sediados na cidade, como a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido). Em 1995 foi nomeada embaixadora em Moscou. Serviu como cônsul-geral em Los Angeles, na Califórnia (EUA), em 2005.
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