
Lisboa é um posto muito cobiçado, não só internamente, mas também por nomeações políticas. Em 1992, para lá foi mandado o José Aparecido de Oliveira, e eu fiquei trabalhando com ele durante mais um ano. A grande missão do José Aparecido naquele momento era formalizar a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que foi uma ideia dele.
Eu me lembro de bem desse período, porque quando ele teve essa ideia, ele me pediu que preparasse o primeiro documento do que viria a ser a CPLP. Com a ajuda de colegas que mandaram subsídios, eu formulei a ideia, que foi colocada em papel, mandada para Brasília e acabou se desenvolvendo. Depois, o José Aparecido pediu a ajuda de políticos e intelectuais brasileiros e aquele pequeno documento que eu havia preparado tornou-se quase um livro. O José Aparecido efetivamente lutou por isso, foi pessoalmente a todas as capitais africanas para levar a ideia aos chefes de Estado e de governo da África lusófona. Em Lisboa, ele também fez uma campanha muito grande.
Os portugueses, no começo, viam com certa reticência essa ideia, porque eles haviam sido os colonizadores dos países africanos. E o retorno sob o guarda-chuva de uma comunidade, para eles, era algo incerto. Mas acabaram aderindo e hoje são grandes entusiastas da CPLP. Foi uma experiência muito interessante ajudar a formular o que veio a ser esta comunidade que aproximou muitos países.
Organismos internacionais como a CPLP só se tornaram possíveis com o fim da Guerra Fria, quando muitos países começaram a formular instituições que os aproximavam com base em alguma característica comum entre eles – o que deu espaço para que os países articulassem coalizões de poder. A União Europeia, por exemplo, começou com a integração do ferro e do aço e se tornou o que é hoje. No caso da CPLP, nós chegamos a eleger brasileiros em organismos internacionais graças ao voto de países que estavam juntos do Brasil nessa coalizão de poder. Tudo isso para dizer que a CPLP foi um instrumento muito útil à política externa brasileira.
Mario Vilalva nasceu no Rio de Janeiro em 28 de junho de 1953. Formou-se em Direito pela Universidade de Brasília, em 1976. Nesse mesmo ano, ingressou no ltamaraty, após graduar-se no curso de formação de diplomatas do Instituto Rio Branco. No exterior, serviu nas embaixadas do Brasil em Washington (1978-1982), Pretória (1982-1985), Roma (1985-1987) e Lisboa (1991-1993). Ao longo de sua carreira, especializou-se na diplomacia econômica, ocupando cargos de destaque, como o de diretor-geral do Departamento de Promoção do Ministério das Relações Exteriores, entre 2000 e 2006, encarregado da promoção das exportações brasileiras e dos investimentos estrangeiros no Brasil. Entre 2018 e 2019 presidiu a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). Foi cônsul-geral em Boston, Estados Unidos, entre 1996 e 1999, e embaixador em Santiago, de 2006 a 2010, em Lisboa, entre 2010 e 2016, e em Berlim, de 2016 a 2018. Ao fim da carreira de diplomata, passou a prestar serviços de consultoria e compor conselhos de empresas brasileiras que atuam no exterior.
Clique aqui para acessar essa história na integra.