Fernando de Mello Barreto

Fernando de Mello Barreto

Democratização da carreira

O problema que nós temos na diplomacia agora é esta seleção, esta aristocracia, este elitismo. Eu ajudei um pouquinho: em 1986, na redemocratização, houve uma reforma chamada Reforma Paulo Tarso para tentar democratizar um pouco a carreira. Eu me lembro de colaborar, porque eu tinha morado na Espanha depois da redemocratização e a Espanha tinha também tentado redemocratizar a carreira deles com base na experiência do resto da Europa, visto que eles estavam ingressando na União Europeia.

Então, eu sugeri – e o Itamaraty aceitou, com algumas poucas modificações – uma proposta de criação de órgãos coletivos e não mais uma pessoa na surdina para decidir promoção e remoção de diplomatas. Nós criamos e, hoje, o Itamaraty tem na carreira – eu acho isso muito importante – várias maneiras de evitar apadrinhamentos e esse tipo de coisa que havia muito mais quando eu entrei. Você tem hoje uma série de requisitos e não é toda carreira que tem isso: tempo de exterior, um curso equivalente a um mestrado de fechamento diplomático, uma tese que seria como se fosse um doutorado. Você tem requisitos acadêmicos e tem requisitos de votação democrática dos seus superiores e dos seus pares. Então, você tem uma seleção e tem que cumprir todos os requisitos.

Se você é general, se é um senador da República e chega para o ministro e diz: “Eu quero que você promova o meu sobrinho”. O ministro vai dizer, com base na lei: “Sinto muito, o seu sobrinho não tem tempo de exterior, não fez o curso não sei do que, ele não tem votação de nenhum dos colegas.” É um critério mais objetivo. Claro que mesmo assim chega no final, tem uma lista em que o presidente da República, junto com o ministro, sobretudo de nível de embaixador, acaba apurando.

Você não pode amarrar a administração de tal forma que fica todo mundo só promovido por antiguidade. Isso é o oposto da ideia da carreira diplomática, que é uma carreira que tem duas “cenourinhas”: promoção e remoção – o que a diferencia do resto do serviço público.

Minibiografia

Fernando de Mello Barreto Filho nasceu em 17 de junho de 1948 na cidade de São Paulo. É bacharel, mestre e doutor em Direito. Antes de ingressar no Instituto Rio Branco e começar a carreira no Itamaraty, em 1979, exerceu a advocacia, trabalhando em escritórios internacionais em São Paulo e em Nova York. Ao longo de sua carreira diplomática no exterior serviu nas embaixadas em Madri (como chefe da Seção Cultural, de 1980 a 1982), em Quito (chefe do Setor Comercial, de 1982 a 1985) e em Ottawa (como chefe do Setor Econômico, de 1993 a 1995). Trabalhou nas missões brasileiras na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, de 1987 a 1990, e na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, entre 1995 e 1998. Chefiou cinco postos no exterior: foi cônsul-geral em Londres (2002-2006), Boston (2010-2012) e Hartford, Estados Unidos (2015-2019), e embaixador em Camberra, na Austrália (2006-2010), e de forma interina em Moscou (2013). Também trabalhou como subchefe e chefe do gabinete do ministro das Relações Exteriores, entre 2001 e 2002, e chefiou o Escritório de Representação do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo (Eresp) entre 2013 e 2014.
Paralelamente à atuação diplomática, manteve atividade acadêmica como professor de História Diplomática Brasileira, no Instituto Rio Branco, e de Direito Internacional, no Instituto de Relações Internacionais da USP. Publicou cinco livros, dentre eles Diplomacia: tradições, mudanças e desafios, em 2024.

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