
O Itamaraty na época da ditadura era um Itamaraty muito cuidadoso. Foi uma instituição muito reprimida, mas que talvez, comparativamente com outras instituições, não foi tão reprimida assim. Até mesmo porque, naquela época, em cada ministério havia uma Divisão de Segurança e Informações, que era chefiada por um agente do Serviço Nacional de Informações (SNI). Era uma coisa de controle mesmo. No Itamaraty, porque havia um grau de respeito dos militares pelo Itamaraty, era um diplomata, ou mais de um, que era o chefe da Divisão de Segurança e Informações. É claro que as pessoas que aceitaram chefiar essa divisão, em geral – eu conheço um caso que escapa à regra –, eram pessoas muito eletivamente afins com o regime, para usar uma categoria weberiana. Mas a alta cúpula do Itamaraty era um Itamaraty antigo, tradicional, já mudando, mas sobretudo tradicional, e que evitou ao máximo fazer perseguições ostensivas.
Eu lembro da história de um amigo, um colega meu de turma que era um homem de uma cultura extraordinária, tinha uma capacidade de elaboração fantástica e era uma excelente pessoa. Ele está aposentado também e eu não vou dizer o nome da pessoa do SNI. Mas esse colega, por trabalhar na Administração, de vez em quando ele tinha que cuidar de assuntos administrativos com a área de segurança e informações. Ele dizia: “Eu chego lá e o Fulano bate em um cofre que tem atrás dele, dizendo: ‘Aqui estão todos os nomes dos comunistas do Itamaraty. Mas eu não posso fazer nada, o ministro de Estado não deixa.”
Essa história, que me foi contada por esse amigo e eu não posso dar mais detalhes, é absolutamente verdadeira. Mas ela é muito interessante porque mostra como havia uma tentativa de proteção. Era mínima, mas havia. Não quer dizer que não tenha havido expurgos e expulsos, casos seríssimos, mas que, comparativamente com os expurgos que aconteceram em outras instituições de Estado, foi, eu acho até hoje, o menos violento. Não é que não tenha sido virulento, mas foi menos virulento.
Hildebrando Tadeu Nascimento Valadares nasceu em Sena Madureira, no Acre, em 12 de novembro de 1945. Graduou-se em Administração Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro em 1968. Tornou-se mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília, em 1974, tendo ainda pós-graduação em Sociologia das Relações Internacionais pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, em 1977. Concluiu o curso do Instituto Rio Branco e ingressou no Itamaraty em 1971. Exerceu os cargos de chefe das Divisões da África II, Ásia e Oceania I, e de diretor-geral do Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais. Seu primeiro posto no exterior foi em Paris, onde desempenhou a função de cônsul-geral adjunto, sendo removido, na sequência, para Assunção. Trabalhou também nas embaixadas brasileiras em Washington e em San José. Em 1992, integrou a representação brasileira junto à Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), em Montevidéu, e foi nomeado cônsul-geral em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, em 1999. Serviu como embaixador em Bucareste, em 2004, em San José, em 2007, e em Doha, Catar, em 2011. Segue pensando e tratando do tema da política externa e de questões geopolíticas em artigos e colaborações para veículos de mídia independentes.
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