Carlos Alfredo Lazary Teixeira

Carlos Alfredo Lazary Teixeira

Marinha peruana, feudo europeu

Recebi um telefonema do meu chefe: “O chefe do departamento está querendo te ver.” Cheguei lá: “Você vai ter que ir para Manaus rapidamente, vai embarcar num navio da Marinha do Brasil.”

Fiz as malas correndo e fui para Manaus. No dia seguinte me apresentei a um almirante no comando da flotilha do Amazonas.

Nós fomos conhecendo tudo, chegamos a Tabatinga, Letícia, depois entramos no Peru, onde o rio já se chamava Amazonas, para a comemoração das festas nacionais do Peru, no dia 28 de julho de 1976.

Aprendi várias coisas sobre a fisiografia do rio, as populações ribeirinhas, as várias cidades que nós visitamos.

O Peru também estava sob um regime militar nesse período. Era o departamento de Loreto, cuja capital é Iquitos. E quem comandava as diversas divisões administrativas do Peru eram os chamados jefes políticos y militares. Eram todos militares, generais. Não me esqueço até hoje do comandante, do jefe político, general Ceballos, um sujeito com postura militar prussiana.

A outra coisa que me marcou também foi que nós visitamos alguns navios da Marinha peruana e vi que grande parte dos oficiais peruanos eram brancos, de olhos azuis, todo mundo europeu. Então eu me dei conta de que a Marinha peruana, nesse período, era um feudo de uma elite branca europeia peruana.

Mostrou bem como era a estratificação social do país que eu estava visitando, em meio àquele fervor patriótico, meio histérico do general Ceballos, levantando uma bandeira gigantesca na mão dele, enquanto a mão suava, sangrava, com lágrimas nos olhos. E a cada passo da cerimônia cantava-se o hino peruano.

Mas o que ficou muito marcado para mim foi a região amazônica, o Rio Amazonas e toda essa vivência de Brasil, essa projeção de Brasil para aquela região, que é muito resultado do trabalho do Juscelino Kubitschek ao inventar Brasília.

A partir de Brasília você tem todo esse movimento de reconhecimento do elemento amazônico e da identidade brasileira e também a visão de que era preciso e era possível avançar na aproximação com os países vizinhos do norte da América do Sul.

Minibiografia

Carlos Alfredo Lazary Teixeira nasceu em 6 de fevereiro de 1948 no Rio de Janeiro. Formou-se em Ciências Jurídicas pela Faculdade Nacional de Direito da então Universidade do Brasil (atual UFRJ). Prestou o concurso direto e ingressou no Itamaraty em 1976. Durante sua carreira diplomática ocupou vários cargos na Secretaria de Estado das Relações Exteriores e serviu em diferentes países. Foi ministro-conselheiro em Washington e vice-cônsul-geral em Miami (Estados Unidos). Chefiou o Setor Político da Embaixada do Brasil em Buenos Aires. Foi assessor especial da Presidência da República (2008-2011). Serviu como cônsul-geral em Ciudad del Este (Paraguai) e Atlanta, Geórgia (Estados Unidos), e foi nomeado embaixador em Lima (2011-2015) e em Quito (de 2015 a 2018). Entre 2008 e 2011 trabalhou como assessor especial na Presidência da República. Com uma atuação muito voltada para promoção da integração regional e a cooperação entre os países que compõem a Bacia Amazônica, Carlos Lazary foi convidado para assumir a direção-executiva da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e atualmente presta serviços como consultor da Plataforma Cipó.

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