
Eu sabia que a Embaixada do Brasil no México estava vaga. Tive uma reunião com o ministro de Estado, o Celso Amorim. Trabalhei com ele por quase dois anos na ONU, tínhamos uma relação pessoal muito boa. Ele disse: “Oi, Sergio, o que você está pensando em relação a posto?” Eu disse: “México”. Ele disse: “Ah, sim. Mas deve ter outras alternativas, existem outros postos interessantes. O que você está pensando como alternativa?” Eu disse: “México”. Ele disse: “Não, mas pense bem, tem outras possibilidades...” Eu repeti que queria o México e na quarta vez eu disse: “Mé-xi-co.”
Acabei removido para o México. A grande oportunidade era firmar um acordo de livre comércio entre o Brasil e o México, a segunda maior economia da América Latina. Estamos falando de 2009, 2010.
No começo, o Brasil queria muito, mas o México opunha muita resistência. No Brasil, no nível técnico, tinha todo o apoio, só que no plano político o Itamaraty começou a ter algumas resistências.
Começaram a dizer no México: “Quem quer esse acordo não é o Brasil, é o embaixador do Brasil.” Eu consegui superar essa versão, que era falaciosa. Só que nós estamos falando de 2009 e 2010, começou a se aproximar a eleição presidencial da Dilma Rousseff.
Estava tudo encaminhado, concordamos com os termos de referência, até que vem o chefe do setor do Itamaraty, o diretor da Divisão de América do Sul e diz: “Não pode, de jeito nenhum, ter esse título de acordo de livre comércio. Tem que ser acordo de cooperação comercial.”
O resultado foi que o Brasil retrocedeu e eu fiquei muito indignado com a posição brasileira, mas não pude fazer nada. Seis meses antes de terminar o meu prazo como embaixador do México indicaram outro embaixador, que não tinha nada a ver com acordo de livre comércio.
Tive que negociar um novo posto. Nessa época o secretário-geral era um amigo meu, Antônio Patriota, que depois foi ser ministro de Estado. Ele disse: “O que você acha de Vancouver?” Eu disse: “Eu gosto muito do Canadá.” Porque foi o meu primeiro posto e, em geral, o primeiro posto você gosta ou detesta, mas geralmente você gosta. Eu disse: “Eu gosto muito do Canadá”. “Está removido para Vancouver!”
Sergio Abreu e Lima Florencio Sobrinho nasceu em 13 de agosto de 1945 no Rio de Janeiro. Formou-se em Economia pela então Universidade do Estado da Guanabara (UEG, atual Uerj) em 1968 e obteve o título de mestrado em Economia pela Ottawa University, em 1977. Concluiu o curso do Instituto Rio Branco em 1970. Foi também professor adjunto de Estudos Latino-Americanos da Simon Fraser University, no Canadá. Serviu como diplomata em Ottawa, em Teerã – onde testemunhou os desdobramentos da Revolução Iraniana –, em Paris (na Unesco) e em Nova York (na ONU). Atuou também nas embaixadas brasileiras em Washington e em Buenos Aires. Chefiou diversas divisões no Itamaraty, incluindo a Divisão de Desarmamento e Assuntos Sensíveis, tendo sido designado representante permanente do Brasil junto à Conferência do Desarmamento em Genebra, Suíça (2007-2011). Foi nomeado Embaixador do Brasil em Quito (2002-2006), na Cidade do México (2008-2012), e cônsul-geral em Vancouver. Foi pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e deu aulas de História da Política Externa Brasileira no Instituto Rio Branco, entre 2016 e 2022. É autor de livros como Mexicanos e Diplomacia, Revolução e Afetos – de Vila Isabel a Teerã. Em 2024 foi eleito membro da Academia de Letras de Brasília.
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