
A participação das mulheres cresceu muito, sobretudo a partir de 2014, quando um grupo de mulheres entregou ao ministro de Estado uma carta com um elenco de solicitações, que vão desde, por exemplo, a criação de uma sala de aleitamento materno no Itamaraty, de um horário especial para uma mãe que tem necessidades, cumpridas as exigências das 40 horas semanais, mas com horários que possam ser flexíveis.
Hoje em dia você tem a AMDB, que é a Associação de Mulheres Diplomatas do Brasil, que são extremamente ativas. Elas têm trabalhado muito na questão de promoções e remoções, porque se você olhar o espectro de como estão distribuídas as mulheres no Itamaraty você verá que tem uma variedade muito grande de lotações, sem discriminação em diferentes áreas, nos patamares mais baixos da carreira, quando você é secretário. Mas na medida em que você passa a ser chefia, a sua possibilidade de lotação nesses lugares se reduz brutalmente. Então, você tem muito poucas mulheres com cargos de chefia.
Hoje já mudou. Você tem mulheres chefes de departamento, chefiando divisão, mas, na minha época, eram pouquíssimas as mulheres que conseguiam chefiar divisão ou chefiar departamento e mesmo chefiar embaixada.
Eu fui a oitava embaixadora a ser promovida; havia somente cinco mulheres ocupando cargos no exterior e todos eles em postos menores, no Caribe.
A grande demanda das mulheres hoje é o seguinte: se eu sou ótima para chefiar uma embaixada na África, que é onde se concentra a grande quantidade de mulheres chefes de posto, eu também sou apta a chefiar Londres, Paris ou Nova York. Embaixadas com mais de dez diplomatas, que são consideradas grandes embaixadas, são uns 23 postos, aqui e ali você teve mulheres chefiando, mas elas ainda são poucas.
Hoje, com o trabalho incessante da AMDB, você tem mulheres chefiando postos importantes na América do Sul, na Europa, embora você tenha ainda uma concentração de mulheres em postos menores.
Mas eu acho que as mulheres vêm conquistando um espaço. Não diria que é um caminho fácil. Às vezes, inclusive, elas são consideradas pelos homens impertinentes porque, vamos dizer assim, a demanda é repetitiva e, às vezes, agressivamente colocada. Mas esse é o caminho que foi encontrado para que novas vias sejam abertas às mulheres.
Vitoria Alice Cleaver nasceu em 5 de setembro de 1944 no Recife. Cursou Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Ingressou no Instituto Rio Branco em 1969, tendo sido a primeira mulher a ganhar a medalha de ouro concedida ao primeiro aluno da turma. No Itamaraty, começou na Divisão das Nações Unidas, tendo sido removida em 1974 para a Embaixada em Londres e na sequência indo trabalhar na embaixada brasileira em Tóquio. Serviu na embaixada em Assunção, chefiando o Setor Comercial, e, em seguida, assumiu a chefia da Divisão de América Meridional (1990), onde trabalhou nas negociações do acordo da hidrovia Paraguai-Paraná. Em 1992, foi ministra-conselheira na embaixada em Buenos Aires, sendo removida na sequência para Quito (1994-1999). Em 1999 foi nomeada chefe da Assessoria Internacional do Ministério da Educação. Foi embaixadora em Manágua (2005-2008) e no Vietnã (2011) e serviu como cônsul-geral em Zurique, Suíça, de 2008 a 2011. Vitoria Cleaver também presidiu a Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB).
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