
Em 1974, o representante brasileiro em Angola era o embaixador Ovídio de Andrade Melo e eu era o secretário diplomata que o assessorava. Eu cheguei muito consciente do meu papel, porque o Itamaraty sempre foi majoritariamente conservador politicamente. Até hoje a maioria dos diplomatas é conservadora, acha que o Brasil tem que abaixar a cabeça em certas ocasiões, e naquela época o Ovídio era de uma linha mais à esquerda, favorável ao movimento socialista que tinha tomado Luanda e que ia ser o novo governo, o MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola.
Eu fico pensando que se Ovídio tivesse como assessor um diplomata conservador, talvez ele não tivesse o estímulo e o ímpeto para conseguir o que ele conseguiu, que foi fazer que o Brasil se tornasse o primeiro país a reconhecer o novo governo de Angola. E isso nos valeu durante anos na África, abriu as portas para o país – o Brasil se tornou uma “persona grata”. Fico imaginando se o Brasil tivesse chegado em Luanda com uma pessoa que ficasse sempre do lado dos portugueses e quisesse mostrar que era um sujeito com cultura europeia, como a maioria dos meus colegas, que ao chegarem da Europa, ao invés de serem brasileiros, querem ser europeus.
Não estou falando mal do Itamaraty, estou falando de uma realidade que há no Itamaraty. Digamos que 60% dos diplomatas são conservadores porque eles vêm de famílias abastadas, tiveram a melhor educação, mas tudo isso no Brasil, onde quem tem uma boa educação de certa forma esnoba quem não tem. É uma questão cultural. Não é por mal, é cultural. Mas eu, não. Eu cheguei e apoiei o Ovídio. Na redação de um relatório, o Ovídio dizia: “Vamos botar essa frase”. Eu dizia: “Essa frase está muito mansa, embaixador. Vamos ser mais duros, vamos falar em exploração, em sofrimento e fome, falar em aldeias queimadas e nas maldades que os portugueses fizeram”. Meu papel foi ter chegado lá com a disposição de contar a história do ângulo de quem estava se libertando e não do ângulo de quem estava perdendo uma colônia.
Raul de Taunay nasceu em Paris em 23 de março de 1949. Fez os seus estudos primário e secundário em diferentes países. Em 1969 entrou na faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Foi aprovado no concurso do Instituto Rio Branco e ingressou no Itamaraty em 1974. Em sua trajetória diplomática destacam-se os serviços permanentes e provisórios em diversos postos no exterior, onde exerceu funções políticas, comerciais, administrativas e, principalmente, culturais. Dentre os muitos postos em que serviu é possível citar Luanda, Nova Déli, Caracas, Caiena (Guiana Francesa), Paris, Praga, Roma, Cairo, Túnis, Malabo (Guiné Equatorial) e Pyongyang. Foi embaixador do Brasil no Zimbábue e na República do Congo (Congo Brazzaville). Em 2009 foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco. Atualmente, Raul de Taunay dedica-se integralmente à carreira literária, tendo publicado mais de 10 livros, entre romances, poesias e contos, com destaque para as obras O andarilho de Malabo, Poemas ao desabrigo e O Sol do Congo.
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