Paulo Roberto de Almeida

Paulo Roberto de Almeida

O preço da insubmissão

Eu sempre dei muito mais valor ao meu trabalho intelectual como diplomata independente do que como burocrata da diplomacia brasileira. Quando eu estava servindo em Washington para negociar um tratado sobre circuitos integrados – foi na época da repressão da Praça da Paz Celestial, em Beijing, 1989 –, nessa ocasião, eu e o presidente do Instituto Nacional de Propriedade Industrial nos revoltamos com as instruções de Brasília, absolutamente absurdas. Falei: “Isso é ridículo”. E fui excluído da delegação.

Fiquei em Washington lendo e assistindo à repressão chinesa pela CNN, à margem de um tratado que, aliás, nunca foi aprovado, porque havia essa divisão entre países em desenvolvimento e países desenvolvidos e queriam proteger a propriedade intelectual dos circuitos integrados por um novo título, não apenas patente ou direito autoral, mas um título expresso para circuitos integrados, meio copyright e meio desenho industrial. Não foi aprovado.

Continuei trabalhando, publiquei vários artigos sem autorização e recebi reprimendas. Houve uma circular do Itamaraty, que a gente chamou de Lei da Mordaça, que era mais repressiva do que o estatuto anterior da carreira diplomática. ’Se o diplomata quiser se pronunciar publicamente sobre temas afetos à política externa e à diplomacia, ele precisa ter autorização para publicar um artigo, um livro’.

Minibiografia

Paulo Roberto de Almeida nasceu na cidade de São Paulo em 19 de novembro de 1949. Iniciou a faculdade de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, mas em decorrência da ditadura militar se autoexilou na Europa, formando-se em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas em 1974, tornando-se em 1984 mestre em Planejamento Econômico e Economia Internacional e doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas. Entrou no Itamaraty em 1977, tendo ocupado diversos cargos na Secretaria de Estado das Relações Exteriores, especializando na área da diplomacia econômica e comercial. No exterior, serviu inicialmente em Berna e Belgrado. Integrou a missão brasileira na Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra e foi representante alterno (substituto imediato do representante permanente) na delegação do Brasil junto à Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), em Montevidéu. Serviu também nas embaixadas do Brasil em Paris e em Washington. Foi chefe da Divisão de Política Financeira e de Desenvolvimento do Itamaraty, de 1996 a 1999, e trabalhou como assessor especial no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República entre 2003 e 2007. Serviu como cônsul-geral adjunto do Brasil em Hartford, nos Estados Unidos, de 2013 a 2015. Entre 2016 e 2019 foi diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri) da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag). Foi docente de Economia Política no Programa de Mestrado e Doutorado em Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub), de 2004 a 2021, e também professor orientador no Mestrado em Diplomacia do Instituto Rio Branco. Além de diversos artigos publicados em revistas especializadas, Paulo Roberto de Almeida é autor de mais de uma dezena de livros, dentre eles: O Homem que pensou o Brasil: trajetória intelectual de Roberto Campos; Apogeu e demolição da política externa brasileira: reflexões de um diplomata não convencional, e o mais recente Vidas Paralelas: Rubens Ricupero e Celso Lafer nas Relações Internacionais do Brasil, publicado em 2025.

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