Sabine Nadja Popoff

Sabine Nadja Popoff

Segurança e risco

Eu estava no carro oficial, com o meu filho atrás, era noite. Era carnaval no Haiti e eu vi que havia um bando só de homens e todos pareciam bêbados. Estava escuro e ouvíamos eles gritando e cantando. Até que eles rodearam o carro e eu me agachei embaixo do banco, agachei meu filho também, deixei só o motorista falando com eles. E eles todos gritando, com garrafas na mão. Eu tive medo que eles fizessem alguma coisa. Embora tivesse a bandeira do Brasil no carro, eu não sabia se aquela turba sabia que bandeira era aquela, de onde nós vínhamos. Eu senti medo.

Em outra ocasião, era um feriado, eu peguei um passeio de barco. Eu estava com meu filho e o barqueiro nos deixou em uma praia próxima, para podermos ficar enquanto os outros iam mergulhar. Estávamos na praia, eu, meu filho e uma turista americana. Deixamos nossas coisas embaixo de um coqueiro. Era uma prainha pequena e, no fundo, uma montanha com florestas, onde você via que tinha uma trilha. Estávamos na beira d’água e de repente descem da floresta três homens, que pegam todas as nossas coisas e somem no meio daquele mato. Fiquei morrendo de medo que eles voltassem, porque éramos duas mulheres e uma criança.

Essa é outra crítica que faço à nossa diplomacia. Eles não nos dão uma estrutura de apoio que permita que você se sinta seguro. Nesses países mais complicados, as embaixadas não têm guardas que possam te proteger. A única exceção foi quando eu fiz um provisório na Argélia, onde tínhamos os fuzileiros navais. Fui como encarregada de negócios e eles estavam todo o tempo atrás de mim, fosse onde eu fosse.

Na Guiana, que era super pacífico, não tinha nada. No Haiti, não tinha grande coisa de proteção. Quando eu servi no Timor-Leste, em Dili, era uma época em que a situação ainda estava meio perigosa. E a embaixada era uma casa pequena de vidro aqui, vidro ali, mais parecia um aquário. Sentíamo-nos muito expostos. E onde morávamos também não tínhamos segurança, nada oferecido pela embaixada. O nosso Itamaraty nos deixava muito ao Deus-dará nesses países.

Minibiografia

Sabine Nadja Popoff nasceu em São Paulo em 21 de maio de 1954. Formou-se em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) em 1978. Depois de concluir o curso do Instituto Rio Branco, ingressou no Itamaraty em 1986, trabalhando inicialmente no Cerimonial. Teve uma carreira marcada pelo serviço em diversos países, trabalhando em postos para os quais foi designada tanto para missões permanentes como provisórias. Seu primeiro posto no exterior foi em Georgetown, na Guiana, tendo servido também em Haia, Tegucigalpa (Honduras), Nova Delhi, Porto Príncipe (Haiti), Hanói, Argel, Dili (no Timor Leste), na Cidade do Panamá e em Daca, Bangladesh, entre outros. Trabalhou nos consulados brasileiros em Barcelona, Tóquio e Houston, Estados Unidos, onde exerceu também a função de cônsul-geral adjunta.

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