
No final da minha carreira, depois de ter sido embaixador em vários países, fui ser cônsul-geral em Milão. Até então eu não tinha tido essa experiência com pessoas brasileiras. Foi um aprendizado. Tem gente que gosta disso, porque dá uma sensação de poder ajudar diretamente, mas é um problema sério. Mulheres brasileiras casadas – como no caso da Itália, onde eu estive –, a mulher vai ao consulado para dizer que está apanhando do marido. São problemas que você não está acostumado a tratar nas embaixadas. Problemas pessoais, perda de documento, está sem dinheiro, foi assaltado, o problema do indivíduo brasileiro é o que se dá no consulado. E também é mais difícil, porque no balcão o povo pode reclamar, dizer que o funcionário é bom ou não é bom. Em uma embaixada você fica muito preservado, não tem esse contato. No consulado você tem um balcão, que abre às nove horas da manhã e o povo vem pedir. A maioria das pessoas é boa, mas um ou outro é desagradável.
A carreira diplomática nas embaixadas é uma coisa mais teórica, é diferente do trabalho consular. Você também ajudava às pessoas, era bom ter contato com elas, mas aqui é um outro tipo de demanda, um tipo de experiência diplomática que eu nunca tinha tido antes nos meus mais de quarenta anos de carreira.
Tive dois anos finais da carreira como cônsul. Foi uma experiência consular bem singular, além de Milão ser uma cidade muito interessante. Foi uma experiência única de lidar com os problemas dos brasileiros e com uma coisa nova que aconteceu nos últimos vinte anos, de brasileiros saírem mais do país. Não sei se é um bom sintoma, talvez seja um mau sintoma, mas quando eu entrei no Itamaraty, há sessenta anos, não havia tantos brasileiros fora do país. Quem ia para Paris era brasileiro da elite. Hoje, tem alguns milhões de brasileiros fora do país e essa parte consular se desenvolveu muito. Tem lugar nos Estados Unidos que tem duzentos, trezentos mil brasileiros. Por isso hoje é uma especialidade importante o setor consular.
Nascido na cidade de Itu, São Paulo, em 13 de junho de 1939, Synesio Sampaio Goes Filho formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo em 1964 e ingressou na carreira diplomática em 1967, trabalhando no Itamaraty até 2009. Na Secretaria de Estado, sua trajetória se destaca pelas experiências de trabalho em gabinetes, tendo chefiado o gabinete de dois ministros das Relações Exteriores. No exterior, trabalhou nas embaixadas de Paris, Lima e Londres. Chefiou as embaixadas brasileiras em Bogotá, Lisboa e Bruxelas, além de ter sido cônsul-geral em Milão. A sua tese “A Formação das Fronteiras do Brasil”, apresentada para o Curso de Altos Estudos (CAE) do Instituto Rio Branco, foi premiada e posteriormente publicada, tendo ganhado diversas reedições. Reconhecido como um dos mais prestigiados pesquisadores da História Diplomática do Brasil e da formação territorial do país, Synesio tem diversos artigos e livros publicados, entre os quais se destaca Navegantes, Pioneiros, Diplomatas. Um ensaio sobre a formação das fronteiras do Brasil, de 1999, reeditado em 2015 e em 2021. Atualmente é professor visitante do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo.
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