Ivânia de Alencar: A mulher que semeou o futuro

Conteúdos:
Há uma singularidade
Na existência da Ivânia:
A presença simultânea
De sutil cumplicidade
Dentro da realidade
Que envolve ela e natureza
Numa recíproca defesa
Em frequência magnética
Que não dá conta a estética
De explicar tanta beleza.

Pelo Museu da Pessoa
Um convite me foi feito.
Grato, prontamente aceito,
É uma iniciativa boa…
Cada estrofe sobrevoa
Suavemente espontânea.
Em atitude simultânea,
Já peguei tinta e papel,
Pois a proposta é um cordel
Sobre a história da Ivânia.
A esferográfica entre os dedos,
A história cai letra a letra,
Mas pra o poeta, a caneta
Não é quem dita os segredos:
Ela é só um dos brinquedos
Com o qual rabisco o repente…
O que está em nossa mente
Pode vir no improviso:
Um gesto, um choro, um sorriso
Expressam o que gente sente.
De Fortaleza, Ceará,
Da região litorânea,
Para as terras da Ivânia
São três horas pra estar lá,
No Sertão de Quixadá
Onde o sabor da memória
E a minha sede de história
Encontravam-se na fonte,
Onde construí a ponte
Pra pescar-lhe a trajetória.
A ponte é o ponto alto
Onde a imaginação
Não reconhece a noção
De perigo e dá seu salto;
Não a que liga o asfalto
Da margem à outra do rio,
Mas empurra o desafio
Pra vulnerabilidade,
Nova possibilidade
Florescendo em novo cio.
A situação era hostil,
A realidade era crítica:
Climática ou quanto política
No Nordeste e no Brasil:
Mortalidade infantil
E mais uma gravidez:
É da Ivânia esta vez,
Intensa igualmente um raio,
Nasce em vinte um de maio
Do ano sessenta e três.
Filha de José Delfino
E Beatriz Cavalcante,
Teve uma infância instigante
De manhã ao sol a pino;
Como se cumpre um destino
Se adentrando os matagais,
Como se os seus ancestrais
Fossem seus guias de fato,
Era mais filha do mato
Do que dos seus próprios pais.
Choró Limão ainda era
Distrito de Quixadá,
Parecia que por lá
Todos estavam na espera,
Falando isso numa esfera
Maior do que se imagina
No diálogo que combina
Forças da resiliência
Com o poder da resistência,
Camponesa nordestina.
De sessenta e três a fora
O tempo fecha a carranca,
A liberdade se tranca,
Sobrevivência é na “tora”.
Enfim tudo só piora
Com o golpe militar
Que veio pra dizimar
Resistências sociais,
Camponeses, culturais,
Que a enfrentaram sem parar.
Há uma singularidade
Na existência da Ivânia:
A presença simultânea
De sutil cumplicidade
Dentro da realidade
Que envolve ela e natureza,
Numa recíproca defesa
Em frequência magnética
Que não dá conta a estética
De explicar tanta beleza.
É, pois, a realidade
Uma lei irrevogável,
Mandado inegociável,
Sem maleabilidade,
Pois qualquer autoridade
A ela é submetida.
Nenhuma ordem expedida
Pode mudar seu percurso,
Pois ela dona do curso
De qualquer sorte de vida.
Até os seus quinze anos
Pra Ivânia era bom demais.
Com irmãs, irmãos e pais
Não tinha terceiros planos,
Os atrativos urbanos
Eram quase imposição;
Por não ter outra opção
Se obriga a mudar de vida,
Tendo como única saída
Abandonar o sertão.
Obrigatoriedade
Pra qualquer jovem estudar
E o território deixar,
Perdendo a identidade.
É a cultura de cidade
Imposta ao trabalhador
Repete-se sem pudor:
“Roça pra quem não estuda”
Agora é ver se isso muda
No Sertão do Agricultor.
Do simples não do simplismo
Vem o saber da Ivânia;
Do saber ser espontânea
Sem o espontaneísmo;
Com saber, sem didatismo,
Distinguir no mato a folha,
Brincar sem cair na bolha
Entre espinho e flor, o fruto,
Na confusão do tumultuo,
Saber fazer sua escolha.
Saiu no rumo da “venta”
Sem saber bem pra onde ia.
Fez-se tarde, noite e dia,
A expectativa aumenta
E quase tudo o que tenta
Rende-lhe o embasamento,
Percebe-se em movimento
Nos movimentos sociais:
Cada movimento a faz
Mover-se em cada momento.
Em meio a grandes plateias
É um temporal que desaba:
Quase que o mundo se acaba
Com as enxurradas de ideias,
Panos mornos, panaceias
Ou com os efeitos da guerra,
O seu ímpeto não se encerra
Vai de PJMP
De CEBs, de CPT
Pelos conflitos de terra
Ela se sentia terra
E a terra sentia-se ela,
A terra gostava dela
Ela gostava da terra;
Ir pra escola era ir pra guerra,
Insistência de terceiras,
Foi pra um colégio de freiras,
Tendo um nome a melhor fase
Comunidades de Base
Daí vem novas trincheiras
Normal era o pedagógico
Pra mulher no Ensino Médio;
Pra Ivânia a escola de prédio
Não teve um sentido lógico,
Seu fator psicológico
Deu sinal de ruptura
Com tal tipo de estrutura,
Metodológico de ensino,
Pra ela é um método cretino
De formar gente insegura.
Muita coisa a desilude,
Mas um fio de esperança
Na Pastoral da Criança
Ali se encontra atitude,
Pois a questão da saúde
Infantil era absurda
De desnutrição aguda
E uma frente de almas boas
Zilda Arns e outras pessoas
Coordenam a frente de ajuda
Enquanto o político blefa
Com as políticas sociais,
Há ações emergenciais
De uma força-tarefa:
Tica, Tonha e Dona Zefa…
Existiam várias frentes
Com farelos e sementes,
Fontes proteicas, gorduras,
Formavam as multimisturas
Para salvar inocentes.
Frise-se aqui neste texto
Que essa situação de angústia
Tem por trás uma indústria
Em que a seca é pretexto
E a solução pra o contexto,
Além da ação solidaria
Está na reforma agrária,
É uma questão de vida…
Convicta dessa saída,
A Ivânia vai pra essa área.
O campo ampliou seus laços
Companheiros nesta lista:
Em São João da Conquista,
Tonhe Ramos, Bastião Inacio,
Chico Ferreira em seus passos,
Eliane Ramos, Betinha,
Seu Almeida em Caiçarinha,
Cleide, Tarcisia e Gabi…
E quando parte dali,
Novo tempo se avizinha.
Para outras lutas parte
Quando ela deixa a caatinga:
Pacatuba, Itaitinga
E o Conjunto Jereissati,
Pavuna não fica à parte
E Alto Fechado, igual,
Com trabalhador rural,
Era nos anos noventa.
Grande poderio enfrenta
Na oposição sindical.
Noventa e um, um menino
Nesse ambiente intranquilo:
Nasceu ali o Camilo
E em noventa e dois, Sandino.
Sem alterar seu destino,
A Ivânia continuava
E em pouco tempo já estava,
Na estrada pagando a reta:
Montando uma bicicleta,
Duas crianças levava.
A história seque seu curso,
Cada pessoa também:
Um não tem nada, outro tem,
Um fala inglês, outro russo,
Cada qual com seu discurso.
Eis que um grupo em discussão
Planejou uma ocupação,
A Ivânia estava no meio:
Depois a conquista veio
Com força da união.
Pra montar o acampamento
União, sonho e suspense;
Felizmente a gente vence,
Agora é o assentamento,
É a refazenda, é o rebento,
Sonhos de todas as gentes,
Agindo em todas as frentes
Numa nova relação
Com a terra e em cada mão
As mais crioulas das sementes.
A conquista é incompleta
Sem as sementes na mão,
Pois sem essa condição
A luta dobrou de meta:
Saiu com a bicicleta
E o companheiro de vida.
Pra Argentina fez partida
Com os corações e mentes
No resgate das sementes
Assim nasce o Ciclovida.
Barra do Leme, esse chão
Há três décadas acolhe
Esse grupo que escolhe
Se autogerir sem patrão,
Onde a participação
Da Ivânia é fundamental,
Com olhar permacultural
Na ecologia e cultura
Criou o Caricultura
Grande referencial.
Ficha Técnica
Autoria: Manoel Inácio do Nascimento
Curadoria: Museu da Pessoa
Xilogravura Capa: Luciana Costa
Design Gráfico: Mariana Afonso
Impressão: Expressão Gráfica e Editora
Revisão e Consultoria: José Santos e Marco Haurélio
Manoel Inácio do Nascimento nasceu em Cajazeiras, no sertão da Paraíba. Trabalhando na roça desde a sua infância, sonhou em ser padre. Além da literatura de cordel, aprendeu a improvisar e criava repentes durante a colheita do algodão. Escapou do trabalho escravo e se tornou repentista e cordelista de feira. Publicou dezenas de cordéis sobre os mais diferentes temas e tomou parte em movimentos sociais em prol da reforma agrária e dos direitos humanos. Viajou boa parte da América Latina com sua companheira, Ivânia de Alencar, trocando sementes crioulas, numa campanha de resgate das sementes naturais, plantadas posteriormente na comunidade em que mora no Ciclovida, em Pentecoste, sertão do Ceará. Graduando em Agronomia na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB, Acarape/Redenção, Modalidade PRONERA. O Ciclovida, segundo o Mapa Cultural do Ceará, “é um movimento cultural sócio ambientalista, onde dialogam arte e cultura na Reforma Agraria, bicicleta como transporte ecológico, sementes crioulas e agroecologia, sob a máxima ‘Pela Nova Relação com a Terra’’, com ações estruturadas nos objetivos e eixos da Lei Cultura viva, numa transversal com a cultura e educação, cultura e saúde, e cultura e o direito à natureza e ao bem viver”.
Luciana Costa nasceu em Fortaleza (CE) no dia 20 de maio de 1985. Multiartista e etnomusicóloga, de ascendência indígena potiguara, reside atualmente em Portugal, onde desenvolve o projeto Trovadoras Itinerantes desde 2016. É membro da Rede Mnemosine de Mulheres Cordelistas, Xilogravadoras e Repentistas desde 2015. Formada em Música, pela Universidade Estadual do Ceará (2008) com habilitação em piano, tem especialização em Etnologia das Artes Performáticas pela Université Nice Sophia Antipolis, França (2018). Sob a inspiração dos pais, iniciou-se na música, nas artes plásticas e no artesanato ainda criança. Xilogravadora, cordelista, cantadora, artista plástica, artesã, multi-instrumentista, compositora, cantora, maestrina de grupos e coros vocais, investigadora das tradições orais, é ainda diretora técnica da Escola de Narradores. Ilustrou com técnicas de desenho e xilogravura quatro folhetos da cordelista cearense Josy Correia. É convidada de festivais de arte, música, narração oral e artes cénicas em países como Canadá, Hungria, França, Cabo Verde, Cuba, Colômbia, Brasil, Holanda, Espanha e Portugal desde 2006.
Realização

Nascida no Quixadá (CE), em 1963, Ivância de Alencar, junto a seu esposo Manuel Inácio, está ligada à luta pela terra e à defesa da natureza. Na década de 1990, o casal toma posse de um lote no assentamento Barra do Leme, em Pentecoste (CE), tendo como lema uma agricultura sustentável, livre de transgênicos e agrotóxicos. Ivânia e Manuel empreenderam, em duas bicicletas, uma jornada épica de mais de 10.000 km em busca das sementes crioulas, passando por Paraguai, Argentina e Uruguai. A defesa da permacultura e da soberania alimentar, além do direito à terra, também estão na pauta de Ivânia.