Geraldo Amâncio Pereira: Um gigante do repente

Conteúdos:
Geraldo, que ainda é Amâncio Pereira,
Com pleno domínio de todas as normas,
Cantando repente, fez uso das formas,
Levando o seu nome pela terra inteira;
Rompendo sem medo a frágil fronteira
Que os homens ergueram pra nos limitar,
Pois sendo erudito, ele é bem popular,
Não cabe nas cercas das vãs convenções,
Seu verso e seu verbo contêm multidões
Na selva, nos cerros, na beira do mar.

Quando a musa me visita,
Mostro que sou diligente.
Vou falar sobre um poeta
Gênio, mestre e competente:
Geraldo Amâncio Pereira,
Um gigante do repente!
Geraldo Amâncio é a fonte
De onde brota a poesia!
Encantador de plateias,
Seu verso tem a magia
De um mestre da cultura,
Destaque da cantoria.
Sítio Malhada de Areia,
Ali nasceu o poeta.
No município de Cedro,
Numa família discreta,
Como astro do repente
Veio cumprir sua meta.
Pois nasceu predestinado
(Esse filho do sertão),
Seus pais Antônio e Francisca
Deram boa educação,
Terceiro filho da prole,
Trouxe a arte por missão.
Era seu avô paterno
Manuel Amâncio Pereira,
Um repentista amador,
Que na arte não fez carreira,
Mas apontou-lhe os caminhos
Dessa cultura altaneira.
Seu talento revelou-se
Desde os tempos de menino;
Nunca gostou do serviço
Pesado do campesino.
Galgou fama, fez sucesso
Como vate nordestino!
Filho e neto de campônios,
Não queria trabalhar
No duro ofício da roça,
Tal formiga a pelejar,
Pois quem nasce pra cigarra
Vive feliz em cantar!
Aos nove anos de idade,
Foi ele alfabetizado,
Queria alçar outros meios
Pra não viver de roçado,
Pela musa da poesia
Teve o coração tocado.
Já na sua adolescência,
Iniciou a carreira…
Inspirado em outro mestre,
O gênio Pedro Bandeira.
Que era na época destaque
Da poesia brasileira!
Bandeira tinha um programa,
Muito bem apresentado,
Numa rádio do Nordeste
E era um vate respeitado;
Seu nome no repentismo
Estava consolidado.
Em audiência, o programa,
Era o primeiro da lista
Pedro Bandeira de Caldas
Grande público conquista.
Geraldo aprendeu cantar
Só escutando esse artista.
Pois a musa já traçara
De Geraldo o seu destino.
Cantou pra Pedro Bandeira
Que, com perspicácia e tino, 8
Disse: “Jovem, você tem
Um talento genuíno!”
Pedro Bandeira depois
O convidou pra duplar.
Geraldo com o seu mestre
Se destacou em cantar;
Seguindo os passos de Pedro
Pôde à plateia encantar.
Mudou-se pra Juazeiro,
Onde Pedro residia.
Viveu bem, casou, fez planos,
Adquiriu maestria
E nos sertões mais distantes
Brilhou com sua poesia.
Depois aprendeu lições
De Antônio Maracajá:
Bom-humor, verso rápido,
Tinha a voz de um sabiá.
Seu nome segue na história
Dos vates do Ceará.
Viajou todo o Brasil,
Cresceu em destaque e fama,
Tornou-se grande entre os grandes
E seu prestígio esparrama
Quando em mais de uma TV
Apresentou seu programa.
De Repente Cantoria
Pela TV Jangadeiro,
Depois na TV Diário
Geraldo foi pioneiro,
Pois seu programa era visto
Por esse Brasil inteiro.
E por dezenove anos
Brilhou na televisão,
Abriu portas, promoveu,
Sua arte em todo rincão,
Porque além de cantador,
É um homem de visão.
Frente a Pinto do Monteiro
E a Otacílio Batista,
Ivanildo Vilanova,
Geraldo é um grande artista
Do Estado do Ceará
É o maior repentista.
E no José de Alencar,
Um teatro sem igual,
Geraldo ali promovia
Todo ano um festival,
E esse evento atraia
Público fenomenal.
Teve parceiros de fama,
Compôs duplas com nobreza,
Um desses nomes foi Zé
Maria de Fortaleza;
E o outro é Guilherme Nobre,
Jovem de grande destreza.
Viajou vários países,
Fez palestras e cantou,
Fascinando muita gente
Ali por onde passou.
Na Europa foi destaque,
A sua estrela brilhou.
Na bela Universidade
De Coimbra, em Portugal,
Geraldo se apresentou,
Num momento magistral
Ao lado de outros poetas,
O encanto foi geral.
Escreveu diversos livros
Sobre Antônio Conselheiro,
O beato de Canudos,
Compondo um belo roteiro…
Fez outro de Lampião
O lendário cangaceiro.
Também publicou folhetos
Bem escritos, registrados,
Muitos vinis e CDs
Por ele foram gravados;
Geraldo e seus pares são
Vates imortalizados.
Participou na Espanha
Do Festival Mundial
De Repentistas, brilhando
De maneira especial.
Foi nas Ilhas Baleares
Esse certame global.
Foi ao Oriente Médio,
Israel e Palestina.
Quem ouve o mestre aprecia
Sua verve genuína.
Em breve irá a Macau
Para cantar lá na China.
Em festivais no Brasil
Subiu altos patamares;
Com quase duas centenas
De bons primeiros lugares;
Por tudo Geraldo Amâncio
É destaque entre seus pares.
Ele é Mestre da Cultura
Do Ceará, nosso Estado,
Por seu notório saber
O poeta é diplomado;
Nas terras alencarinas
É um nome consagrado.
Também foi eleito para
A Academia Cearense
De Letras, a mais antiga
E assim Geraldo pertence
A uma elite cultural
Que honra o povo cedrense.
Por sua imensa grandeza,
Pela contribuição,
Pelo seu belo legado
Eu afirmo com razão:
Geraldo Amâncio engrandece
A cultura da Nação.
Diz Geraldo que na vida
Tudo quanto empreendeu
Deu certo porque um anjo
Do bom Deus sempre o valeu;
Nos momentos mais difíceis
Essa luz o protegeu.
NOS DEZ DE GALOPE NA BEIRA DO MAR
A força dos versos da terra nascidos,
A verve e o estro na lida moldados,
A voz evocando triunfos passados,
E a lira tangida por dedos ungidos
São ecos potentes, poemas urdidos
Por quem, possuindo talento sem par,
Fez da caminhada missão exemplar,
Que no sertão velho nasceu como escaldo,
E em terras do Cedro mostrou seu respaldo,
Cantando galope bem longe do mar.
Da pia ele trouxe seu nome, Geraldo,
Que é “guerreiro forte” na velha Germânia,
Contudo, em sua alma não reina a cizânia,
Pois seu conselheiro foi Cego Aderaldo;
E aos poucos medravam seu nome e seu saldo,
Ouvindo, absorto, seu mestre cantar
Com tanto lirismo que pôde sonhar
Com voos mais altos, sobre a cordilheira,
Seguindo o exemplo de Pedro Bandeira,
Foi cantar galope na beira do mar.
Geraldo, que ainda é Amâncio Pereira,
Com pleno domínio de todas as normas,
Cantando repente, fez uso das formas,
Levando o seu nome pela terra inteira;
Rompendo sem medo a frágil fronteira
Que os homens ergueram pra nos limitar,
Pois sendo erudito, ele é bem popular,
Não cabe nas cercas das vãs convenções,
Seu verso e seu verbo contêm multidões
Na selva, nos cerros, na beira do mar.
Seu brado, ecoando, ruiu pretensões
De bardos baldados, inflados nos egos,
Que, mesmo enxergando, estavam tão cegos,
Movidos somente por vãs ilusões.
Colheu a vitória nas competições
Sem nunca o talento do irmão desprezar,
Fez dupla com mestres, de modo exemplar,
Desde Patativa, gênio do Assaré,
Até Ivanildo, sem quebrar o pé,
Nos dez de galope na beira do mar.
Na força imanente Geraldo tem fé,
Jamais desdenhando de crentes e ateus,
Seu dom é a prova de que existe um Deus,
Que o Livro Sagrado chamou de Javé,
O qual significa “Aquele que é”,
Do tempo de Sara, Abraão e Agar;
Tocando a viola, nos faz recordar
De Davi, “com armas bem fortalecidas”,
Tangendo sua harpa, com notas sentidas,
Nos dez de galope na beira do mar.
A vida de um bardo é a soma das vidas
De heróis e profetas de tempos defuntos;
Por isso, domina diversos assuntos
E exuma as memórias há muito perdidas;
E se estas do vulgo estão esquecidas,
A nossa tarefa sempre é relembrar
Que o Sol da Justiça não tarda a chegar
E vai se estendendo do campo à cidade,
Varrendo do mapa toda iniquidade,
Lavando a tristeza nas águas do mar.
Geraldo é gigante, em sua humildade,
Carrega dos mestres os ensinamentos,
Cordel e repente são seus instrumentos
Nos quais forja os hinos de amor, liberdade,
A crispa das rimas contém a verdade
De uma arte tão rica e tão salutar,
Que o tempo não pode jamais apagar…
Essa arte é o poema e o própria poeta,
É o arco, é o alvo, o arqueiro e a seta,
Nos dez de galope na beira do mar.
Ficha Técnica
Autoria: Klévisson Viana (cordel), Marco Haurélio (galopes)
Curadoria: Museu da Pessoa
Xilogravura Capa: Maercio Lopes
Design Gráfico: Mariana Afonso
Impressão: Expressão Gráfica e Editora
Revisão e Consultoria: José Santos e Marco Haurélio
Klévisson Viana é cordelista, cartunista, xilogravador, editor e presidente da AESTROFE (Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará). É também membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Coordena a Tupynanquim Editora, onde já publicou cerca de mil obras de quase uma centena de autores. Como autor, publicou 40 livros e quase 200 folhetos de Literatura de Cordel. Seus trabalhos já “passearam” pelos quadrinhos, televisão e adaptações para o teatro. Destaca-se o folheto A quenga e o delegado, transformado em episódio da série Brava Gente da Rede Globo. Tem trabalhos publicados em diversas editoras nacionais e internacionais, além de obras divulgadas em antologias na Turquia, Bélgica, Itália e Holanda. Seu currículo consta de diversos prêmios importantes. Foi selecionado diversas vezes pelo PNBE – Programa Nacional da Biblioteca Escolar (MEC), e venceu três vezes o Troféu HQ Mix, além de seleções do PNAIC – Programa Nacional de Alfabetização na Idade Certa (MEC) e Prêmio Jabuti de Literatura, dentre outros. É idealizador da Feira do Cordel Brasileiro, realizada, em várias edições, em Fortaleza e outras capitais.
Marco Haurélio é escritor, professor, editor e divulgador das tradições populares brasileiras. Tem mais de 60 títulos publicados, a maior parte voltada à Literatura de Cordel. Dedica-se, também, à recolha, estudo e salvaguarda dos gêneros da tradição oral (contos, lendas, poesia), tendo publicado vários livros, como Contos Folclóricos Brasileiros, Contos e Fábulas do Brasil e Contos Encantados do Brasil. Seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro de Bolonha, Itália, e receberam distinções como os selos Seleção Cátedra-Unesco (PUC-Rio) e Altamente Recomendável (FNLIJ). Finalista do Prêmio Jabuti em 2017 e vencedor do IX Prêmio AELIJ na categoria Adaptação/Reconto, Marco é mestre em Teoria e História Literária (Unicamp) e doutorando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP). É curador da mostra Encontro com o Cordel e cocurador da expografia Vidas em Cordel, do Museu da Pessoa, que já percorreu várias cidades brasileiras e ocupou importantes espaços, como o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Instagram: @marco_haurelio
Maércio Siqueira nasceu em Santana do Cariri (CE), mas mora em Crato, no mesmo estado desde 1983. Graduado em Letras (2001), iniciou-se na xilogravura em 1999. Depois de um intervalo sem se dedicar a essa arte, a partir de 2006 voltou a gravar, estudando junto a Carlos Henrique as técnicas que esse artista desenvolveu. Em 2007, participou de uma exposição coletiva “Incisão”, no Centro Cultural Banco do Nordeste- Cariri. Juazeiro do Norte (CE). Sua primeira exposição individual foi Impressão de Mundos, 2008, no Sesc-Crato. Foi presidente da Academia dos Cordelistas do Crato em 2009. Atualmente cursa Mestrado em Filosofia, em João Pessoa. Ilustrou vários livros, dentre os quais O Tribunal da Floresta (de Klévisson Viana), A Volta ao Mundo em Oitenta Dias em Cordel (de Pedro Monteiro), Cordel do Pequeno Príncipe (de Stélio Torquato) e a caixa temática 10 Cordéis Nota 10 (de Marco Haurélio).
Realização

Nome lendário do repente nordestino, Geraldo Amâncio Pereira (1946) venceu mais de 200 concursos de cantoria, consagrando-se como um dos grandes valores de sua geração. Natural do Cedro (CE), também é um aclamado cordelista, escrevendo, neste gênero poético, elogiadas biografias de Lampião e Antônio Conselheiro. Pesquisador, comunicador, é o primeiro poeta popular eleito para a Academia Cearense de Letras.