Maria da Penha: Símbolo de luta contra a violência doméstica

Conteúdos:
Tudo no mundo se aprende,
Passa pela educação”,
Disse Maria da Penha,
Que preza pela união:
A mulher tem seu lugar,
Devemos todos firmar
Um pacto contra a agressão.

Pra escrever este cordel
Eu fui logo pesquisar
Sobre Maria da Penha
E o seu longo caminhar.
Eu ouvi sua entrevista
E o seu ponto de vista
No momento de narrar.
Natural de Fortaleza,
Filha de pais generosos:
José da Penha e Maria
Lery, muito carinhosos.
Predominou grande amor
Nesse lar acolhedor
Desses pais tão amorosos.
A mãe era professora,
Escolheu não lecionar,
Pois educar as suas filhas
Veio em primeiro lugar.
Bons colégios estudaram
E boas notas tiraram,
Sem mesmo pestanejar.
Teve uma infância feliz,
Uma boa educação,
Família pra protegê-la
De qualquer situação.
Educá-la para a vida,
Existência bem vivida
Sem a discriminação.
Vivia num lar de paz
Uma vida com doçura,
Curtindo a liberdade
Com amor e com ternura.
Amando e sendo amada,
Com zelo foi bem cuidada
Com total desenvoltura.
Tem boas recordações:
Com seu pai ia pescar;
Ondas batendo nas pedras,
Piscininha a se formar.
Era mesmo uma alegria
Nos momentos que vivia,
Água morna pra banhar.
Morava em rua pacata
Com a boa vizinhança
À tarde todos brincavam
E mantinham aliança
De uma amizade inocente,
Realmente transparente;
Lá havia confiança.
Era a sua avó materna
Uma mulher bem ativa,
Tinha educação bem rígida,
Era muito positiva,
Chamada de “delegada”,
Mas por muitos era amada
Por ser ela tão cativa.
Pois fez curso de parteira,
Dedicou-se à profissão;
Em sua comunidade
Toda aquela região,
Com seu jeito especial,
Cada parto natural
Era luz na escuridão.
Maria da Penha sempre
Foi jovem estudiosa;
Com responsabilidade,
Era mesmo habilidosa.
Sempre bem disciplinada
Uma aluna dedicada,
Realmente generosa.
Era, porém, bem sapeca
Com vestido de mocinha,
Calçava sapato e meia,
A “roupa de menininha”;
No vestido tinha um laço,
Não faltou desembaraço:
Batom nos lábios mantinha.
Tinha o corpo de moça
Não faltava rebeldia:
Sempre que assistia missa
Pois com seus pais ela ia,
Sutilmente paquerava
Um jovem que ali estava,
E de longe ele a via.
Sua mãe soube do jovem
Que sempre a acompanhava
E que Maria da Penha
No caminho namorava:
Deu sua autorização
Pra namorar no portão
Da casa onde ela morava.
Começou nova paquera
E logo se apaixonou.
Ele era um jornalista;
Namorou, depois casou.
Ele era um aventureiro,
Nunca foi bom companheiro
E o casamento acabou.
Maria naquela época
Já fazia faculdade;
A sua avó a orientou
E ela, com capacidade,
Fez curso de Farmácia,
Concluiu com eficácia,
Talento e autoridade.
Em Farmácia e Bioquímica
Ela um dia se formou;
E foi na Universidade
Federal, onde estudou,
Exímia universitária,
Dedicou-se nesta área
Disse: “Caminhando vou”.
Porém foi lá em São Paulo
Que ela um dia conheceu
Um certo colombiano
E o namoro aconteceu,
Pois havia gentileza;
Tudo então era beleza,
Foi assim que sucedeu.
E foi então nesse ínterim
Que ela um dia engravidou.
Teve a primeira filha
E ele logo aproveitou:
A filha foi registrar
Pra se naturalizar;
A coisa assim caminhou.
Novamente engravidou
Na capital Fortaleza;
Ela arranjou um emprego
Pra o marido, com certeza,
Na SEAG lá em Natal
Agiu sem prever o mal,
Com carinho e gentileza.
O marido não queria
Sua família presente:
Não podiam visitá-la,
Era triste o ambiente.
A mercê de tal bandido,
Fazendo tudo escondido,
Natureza de serpente.
Ela já tinha as três filhas,
E por ele maltratadas;
Por esse pai violento
Elas eram atacadas.
E o tempo foi se passando
Com Maria observando
As coisas muito mudadas.
Ela descobriu um dia
Dele um falso documento
Era um título de doutor,
Mas sem qualquer fundamento,
Ele buscou benefícios
Porém causou malefícios,
Sem nenhum embasamento.
Passeando com a família,
O caminho ele errou,
E o carro num areal,
Ao se perder, atolou.
Ele foi buscar ajuda
De alguém que ali os acuda,
Depois pra casa marchou.
Quando chegaram em casa,
Mãe e filha adormeceram.
Na esposa ele atirou,
Vizinhos apareceram…
Ele disse: “Foi assalto!”
Ele nem desceu do salto,
Muitos lá permaneceram.
Maria da Penha foi
Para um hospital levada;
Internada quatro meses,
Da família acompanhada.
Se o marido a visitava,
Angustiada ficava,
Porque era ameaçada.
Quando ela recebeu alta,
Foi pra casa novamente.
E enquanto tomava um banho
Com a água um pouco quente,
Ele, fingindo ajudar,
Tentou a eletrocutar,
Agindo covardemente.
Em Brasília, foi pra o Sara
Pra suas lesões tratar
Com tratamento eficaz
Exercício veio ao ar:
Tratou a musculatura
Lhe dando mais estrutura
Pra o seu corpo melhorar.
Ao retornar para casa
Fez a documentação
Da “Separação de corpos”.
Ela resolveu então
Da sua casa sair,
Sem ele a impedir,
Essa foi a solução.
Corria à boca miúda
Que o marido era suspeito
De um dia tentar matá-la,
Pois ele era um mau sujeito.
À esposa não deu valor,
Sem conhecer o amor,
Movido por preconceito.
O Sistema Judiciário
O deixou em liberdade,
Um Sistema negligente
Com grande morosidade;
Pois se não há punição,
Os machistas logo vão
Cometer insanidade.
Maria da Penha então
Um Instituto fundou;
Recebeu Honoris-causa
No ativismo se firmou:
Em defesa dos direitos,
Em buscas dos nobres pleitos
Pelas mulheres lutou.
Ela publicou um livro
Com a real narrativa,
Chamado Sobrevivi,
Onde foi bem positiva.
Não ficando mais calada,
Teve a vida preservada,
Foi a única alternativa.
A Lei Maria da Penha,
Sendo, enfim, sancionada,
Prestava grande tributo
À cearense atacada,
Vítima da atrocidade,
Do machismo, da maldade
Daquela fera assanhada.
O seu ex foi condenado,
Mas ficou em liberdade;
Depois detido alguns anos,
Revolta a sociedade,
Pois num país tão machista
A Justiça sempre é vista
Com total morosidade.
Contra Maria da Penha
A insanidade escalou;
Inventaram fake-news,
Gente má a ameaçou.
Nossa guerreira sofreu,
Ela então se recolheu
E a intolerância reinou.
Por isso ela conta com
Proteção policial,
Assegura a integridade
Física, também social.
Em qualquer situação,
Ela tem a proteção,
Independe do local.
Tião Simpatia canta
Os seus versos em cordel
A Lei Maria da Penha
Por ser grande menestrel
Da cultura popular
E saber bem divulgar
Os seus versos a granel.
Maria da Penha é líder
De um notável movimento
Em defesa das mulheres
Em todo e qualquer momento,
Prevê mais duras sanções
Ante ataques e agressões
De um tipo mau, violento.
“Tudo no mundo se aprende,
Passa pela educação”,
Disse Maria da Penha,
Que preza pela união:
A mulher tem seu lugar,
Devemos todos firmar
Um pacto contra a agressão.
Ficha Técnica
Autoria: Ivonete Morais
Curadoria: Museu da Pessoa
Xilogravura Capa: Lucélia Borges
Design Gráfico: Mariana Afonso
Impressão: Expressão Gráfica e Editora
Revisão e Consultoria: José Santos e Marco Haurélio
Isabelly Moreira é natural de São José do Egito (PE), berço de grandes poetas populares do Nordeste. Poetisa e ativista cultural há mais de dez anos, é autora do livro Canta Dores e de diversos títulos de cordéis, incluindo títulos voltados para a literatura infantil. A artista também desenvolve trabalhos de consultoria e assessoria de políticas culturais. Enquanto produtora cultural, integrou diversos projetos no calendário artístico da região, ganhando destaque como uma das poetisas contemporâneas mais relevantes de Pernambuco.
Lucélia Borges é xilogravadora, contadora de histórias, terapeuta holística e pesquisadora da cultura popular brasileira. Mestre em Estudos Culturais pela USP, pesquisadora de cultura popular, ilustrou vários folhetos de cordel e livros como A Jornada Heroica de Maria e Contos Encantados do Brasil, de Marco Haurélio, ambos premiados com o selo Cátedra-Unesco (PUC-Rio) e com o selo
Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Escreve textos sobre cordel e xilogravura no blogue Xilo-Mulher (xilo-mulher.blogspot.com).
Jô Oliveira, mestre dos quadrinhos, das artes plásticas e da literatura infantojuvenil, é pernambucano da Ilha de Itamaracá. De família paraibana, passou a infância em Campina Grande, de onde migrou, aos 11 anos, para o Mato Grosso do Sul e, no início de sua vida acadêmica, para o Rio de Janeiro, onde cursou a Escola de Belas Artes da UFRJ. Em 1969 mudou-se para Budapeste, capital da Hungria, onde ingressou na Escola Superior de Artes Industriais. O seu trabalho de conclusão de curso, uma versão do bumba meu
boi, lançado em 1974, foi reeditado 40 anos depois, com texto de Marco Haurélio, e batizado como Mateus, Esse Boi é Seu. Teve livros lançados na França, Alemanha, Grécia, Dinamarca e Suécia. Participou de exposições artísticas em vários países, e, por duas vezes, recebeu o prêmio pelo melhor selo do mundo na cidade de Asiago, Itália, e recebeu quatro vezes a medalha Olho de Boi pela criação do melhor selo brasileiro. Recebeu, ainda, o Prêmio Tucuxi
de Ilustração, o Troféu Carlos Estevão de Humor e o Troféu de Grande Mestre dos Quadrinhos.
Realização

Maria da Penha Maia Fernandes nasceu em Fortaleza (CE), em 1º de fevereiro de 1945. Farmacêutica bioquímica formada pela Faculdade de Farmácia e Bioquímica da Universidade Federal do Ceará, com mestrado em Parasitologia em Análises Clínicas Universidade de São Paulo em 1977, sua vida foi marcada pela violência doméstica e, depois, pela luta em defesa das mulheres e contra a agressão. Sua luta, somada a outras iniciativas, redundou na Lei n. 11.340, ou Lei Maria da Penha, assinada em 7 de agosto de 2006.